
A Polícia Civil gaúcha deflagrou, na manhã desta quinta-feira, a Operação Criptoabate contra uma organização investigada por aplicar o chamado “golpe do abate de porcos” e lavar dinheiro por meio de empresas, contas bancárias e criptoativos. A ação, que já prendeu dois investigados, cumpre 90 ordens judiciais no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.
A investigação começou após uma aposentada de 70 anos, moradora de Porto Alegre, relatar um prejuízo superior a R$ 37 milhões em uma suposta plataforma de investimentos. Os valores investidos eram oriundos de uma herança.
A partir da denúncia, feita em fevereiro do ano passado, a polícia identificou uma estrutura financeira com movimentações consideradas atípicas superiores a R$ 30 bilhões e pelo menos 140 potenciais vítimas relacionadas à mesma dinâmica criminosa.
Ao todo, são 10 mandados de prisão preventiva, 16 de busca e apreensão, bloqueios de contas bancárias e medidas cautelares contra outros oito investigados. Entre os alvos estão três proprietários de instituições financeiras que atuam na conversão de moeda fiduciária para criptoativos, dois estrangeiros, um deles também dono de uma dessas empresas, e uma gerente de uma instituição financeira tradicional, suspeita de facilitar a abertura de contas utilizadas pelo grupo. A Polícia Civil não divulga os nomes dos investigados nesta fase da operação.
Segundo a investigação, o grupo utilizava uma estrutura dividida em diferentes núcleos para captar vítimas, abrir e controlar empresas e contas bancárias, movimentar os valores e convertê-los em criptoativos. A investigação identificou indícios de facilitação do esquema de dentro no sistema financeiro e o uso de “laranjas” para abertura de empresas e contas bancárias utilizadas pelo grupo.
A operação busca atingir diferentes etapas do esquema, desde a abordagem das vítimas até a movimentação, ocultação e conversão dos valores obtidos com as fraudes. A investigação prossegue para análise do material apreendido, identificação de novos envolvidos e localização de bens e valores que possam ser recuperados.
Idosa investiu toda a herança
A principal vítima do esquema é uma mulher de cerca de 70 anos, moradora de Porto Alegre, que perdeu mais de R$ 37 milhões. Segundo a investigação, o dinheiro era proveniente de uma herança recebida por ela e de rendimentos acumulados em investimentos anteriores.
De acordo com o delegado Eibert Moreira, responsável pela investigação, a idosa já tinha experiência no mercado financeiro e mantinha seus recursos com uma corretora legítima, por meio de um corretor de investimentos. De acordo com a polícia, ela tinha um perfil considerado agressivo e costumava buscar aplicações de maior rentabilidade, apesar das recomendações do profissional para evitar aportes elevados em investimentos de maior risco.
Convencida pelos criminosos, a vítima retirou os recursos que mantinha na corretora e transferiu o dinheiro para a falsa plataforma de investimentos. Com isso, perdeu todo o patrimônio proveniente da herança e os rendimentos que havia acumulado ao longo dos anos.
Como funcionava o golpe
A estratégia usada pelo grupo é conhecida internacionalmente como “golpe do abate de porcos” (“pig butchering”). A modalidade consiste em conquistar gradualmente a confiança da vítima para induzi-la a transferir quantias cada vez maiores a uma suposta plataforma de investimentos.
Segundo a Polícia Civil, as vítimas eram incluídas em grupos de mensagens que simulavam comunidades legítimas de estudo e investimentos no mercado financeiro. Nesses ambientes, supostos especialistas, assistentes e outros participantes interagiam de forma coordenada para transmitir credibilidade e segurança.
Os criminosos apresentavam análises de mercado, orientações financeiras e resultados aparentemente positivos, fazendo com que a vítima acreditasse que seus investimentos estavam gerando lucro. Com o aumento da confiança, os aportes também cresciam.
Quando a vítima tentava sacar o dinheiro, porém, os valores eram bloqueados. A partir desse momento, surgiam novas cobranças, apresentadas como taxas, impostos ou valores necessários para liberar o patrimônio. A cada pagamento, uma nova exigência poderia ser apresentada, mantendo a vítima presa à expectativa de recuperar o dinheiro já investido.
Fonte: Camila Mendes/Correio do Povo


