
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul apresentou nesta sexta-feira mais detalhes do inquérito remetido ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) acerca das investigações sobre o desaparecimento da família Aguiar, em janeiro deste ano, em Cachoeirinha. Ao todo, seis pessoas foram indiciadas pela polícia. Alguns detalhes, como o uso de tecnologia para criar um enredo fictício para o sumiço de uma das vítimas, chamaram a atenção da polícia.
Silvana Aguiar e seus pais, Isail e Dalmira, desapareceram de suas casas entre os dias 24 de 25 de janeiro. O relatório indiciou o policial militar Cristiano Domingues Francisco, principal suspeito do caso, pelos crimes de feminicídio, duplo homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, abandono de incapaz, falsidade ideológica, furto qualificado, fraude processual, falso testemunho e associação criminosa.
Ele permanece preso preventivamente no Batalhão de Polícia de Guarda (BPG), em Porto Alegre, desde o dia 10 de fevereiro. Além dele, foram indiciados: a esposa do policial, que teria participado ativamente no pós-crime ao manipular dados e fraudar o processo, respondendo também por ocultação de cadáver; o irmão de Cristiano, por fraude processual e ocultação de cadáver; a mãe do policial por fraude e associação criminosa; a atual sogra pelos mesmos motivos; e um amigo próximo por auxiliar na limpeza de evidências, falso testemunho e associação criminosa.
A Polícia Civil afirmou ainda que, nas últimas semanas, havia solicitado a prisão preventiva de quase todos os indiciados, menos do amigo de Cristiano, mas a justiça não aceitou o pedido. As buscas pelos corpos das vítimas não serão encerradas mesmo com o inquérito remetido ao MPRS. “Esses esforços continuarão sempre que novos indícios surgirem. A ausência dos corpos não nos impede de indiciar o suspeito por feminicídio e duplo homicídio”, reforçou o delegado Ernesto Prestes, da 2ª DP de Cachoeirinha.
Linha do tempo das mortes e evidências
A investigação da polícia aponta que, na noite do dia 24 de janeiro, foi registrado que o celular de Cristiano se conectou à rede de internet Wi-Fi da casa de Silvana. O mesmo aconteceu com o celular pessoal da vítima, indicando que ele e a ex-esposa estiveram juntos no mesmo momento. Por volta das 23h45min, quando um veículo VW Fox de cor vermelha sai da residência, ambos os celulares se desconectam da rede de internet da casa.
Horas depois, na madrugada de domingo, dia 25 de janeiro, o celular de Silvana gera um acesso para compartilhamento de dados móveis para outro smartphone. Esse ponto é acessado por um dos celulares utilizados por Cristiano e a senha para isso foi registrada como “megera77”. As investigações apontam que esse era um termo pejorativo que o indiciado utilizava para se referir à ex-mulher.
Quando o carro vermelho volta à casa de Silvana, ainda na mesma madrugada, o celular dela volta a se conectar. No domingo pela manhã, a rede do celular da vítima indica, por geolocalização, que o aparelho estava nas proximidades da casa de Cristiano. Neste momento, um perfil de Silvana nas redes sociais comunica que ela havia viajado para a Serra e sofrido um acidente.
Ainda pela manhã, os pais de Silvana iniciaram as buscas para localizar a filha, procurando ajuda em uma delegacia, que estava fechada. No trajeto, eles encontram uma viatura da Brigada Militar e relataram aos policiais sobre o acidente. “O Isail disse que estava desconfiado do possível acidente e que acreditava que seu ex-genro estaria envolvido com os fatos. Ele relatou ainda que buscaria conversar com o Cristiano”, contou o delegado Prestes.
Uso de inteligência artificial para acobertar
As investigações apontaram ainda que, neste período, a família recebeu uma ligação com a voz de Silvana informando sobre o acidente. Entretanto, análises feitas no computador de Cristiano mostram que ele utilizou de um software de inteligência artificial para clonar a voz da ex-mulher. O texto utilizado no enredo para acobertar o crime foi encontrado no celular dele, em um bloco de notas, novamente intitulado como “Megera”.
Na mensagem clonada, Silvana também citaria um suposto problema no quadro de luz de sua casa e que Cristiano a ajudaria a resolver. Por volta das 16h30min, o policial se deslocou até a casa dos ex-sogros, que fica nas proximidades da casa da ex-mulher. Neste momento, Cristiano e Isail vão até a casa de Silvana. Após isso, o idoso não foi mais visto. Instantes depois, o policial atravessa a rua e vai até a outra residência visitar Dalmira. Ela também não é mais vista após isso.
O policial deixa a casa sozinho, na madrugada do dia 26 de janeiro. “Toda essa linha do tempo só foi possível após quebra e análise de dados. Eles nos permitem concluir que a Silvana, o Isail e a Dalmira foram mortos entre os dias 24 e 25 de janeiro. E que Cristiano permaneceu com o celular dela para criar um enredo para poder enganar, atrair e matar os pais dela”, completou o delegado.
No dia seguinte, o policial chegou a levar o celular da ex-mulher para o trabalho, realizando novas publicações em suas redes sociais. Conforme o inquérito, Silvana foi morta entre 21h30min e 23h45min do dia 24 de janeiro, dentro da própria casa. É quando os telefones de Silvana e Cristiano desconectam da rede Wifi. A morte de Isail também ocorre dentro da casa de Silvana, entre 16h30min e 16h50min do dia 25 de janeiro.
Já Dalmira foi morta pouco depois, na própria casa. Sobre a retirada dos corpos, a polícia concluiu que os corpos de Silvana e Isail foram removidos da casa dela durante a madrugada do dia 26 de janeiro. A polícia explicou ainda que, pelo que foi possível deduzir a partir do trabalho da perícia no local do crime, que não havia vestígio de sangue espirrado por arma branca, arma de fogo ou pauladas. A hipótese principal é de asfixia por esganadura.
Outros detalhes sobre a atuação de Cristiano
A polícia segue apontando que a motivação para o crime foi uma tensão existente entre Silvana e Cristiano em função da educação do próprio filho, de 9 anos. Em janeiro, a vítima teria informado uma amiga que procuraria um advogado para retirar de Cristiano a guarda do filho. Ela ainda procurou o Conselho Tutelar da cidade, desencadeando os fatos que resultaram em sua morte.
Ainda em janeiro, em uma conversa pelo celular com a atual esposa, Cristiano disse estar “perdendo a paciência”. Já a motivação para a morte dos idosos, a polícia entende que elas ocorreram pelo casal não acreditar no enredo criado por Cristiano sobre o paradeiro da filha. “Eles tinham dentro deles a convicção de que o Cristiano havia feito algo”, complementou o delegado responsável pelo caso, Anderson Spier.
Outro ponto apontado pela Polícia Civil é que um dos álibis de Cristiano, sobre onde estava no momento dos crimes, era de uma noite de jogos com o filho. Entretanto, na mesma noite, o menor ligou para o pai perguntando onde o policial estava. A madrasta também não estava em casa no momento da ligação. Desde então, o menino está aos cuidados da avó paterna, que também foi indiciada pela polícia.
Testemunhos de policiais militares colegas de Cristiano apontam ainda que ele aparentava estar nervoso e “medicado” após a data dos crimes. O comportamento foi considerado atípico pela polícia. Cristiano teria dito ainda, de forma espontânea para alguns colegas, que não se surpreenderia se fosse “preso por triplo homicídio”.
A polícia entende ainda que existem evidências de que Cristiano começou a planejar ou pensar na possibilidade de cometer os crimes ao menos um mês antes dos fatos, principalmente com a aquisição, em nome de terceiros, de mais um aparelho celular utilizado durante o final de semana dos crimes. O celular também teve informações adulteradas. Chamou a atenção da polícia o conhecimento sobre dados e tecnologia da informação, que tornaram a investigação complexa.
O que diz a defesa dos indiciados
Ainda durante a apresentação do inquérito, a defesa do irmão de Cristiano, Wagner Domingues Francisco, revelou que tomou conhecimento do indiciamento do cliente através da imprensa. Além disso, afirmou que, até o momento, não teve acesso aos “respectivos expedientes, circunstância que impede o pleno conhecimento das teses investigativas”.
Em nota do escritório Breier, a defesa ainda que as imputações divulgadas são “meras hipóteses investigativas, ainda não submetidas ao contraditório, sendo o inquérito policial, por sua natureza, procedimento de caráter unilateral”. Já o advogado de defesa de Cristiano, Jeverson Barcellos, apontou que ainda não teve acesso ao inquérito.
Inquérito de mais de 20 mil páginas
A Polícia Civil destacou ainda que esta foi considerada uma das maiores investigações da história da polícia gaúcha. Ao todo, a peça conta com mais de 20 mil páginas e um volume de 10 terabytes (TB) de dados. O material foi enviado ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) logo após o anúncio oficial.
Fonte: Correio do Povo