
Após um primeiro trimestre desafiador, com queda no consumo doméstico e nas exportações, a indústria calçadista deve iniciar um processo de recuperação na segunda metade do ano. A projeção para a produção de calçados, ao final do ano, fica entre uma queda de 1,2% (cenário pessimista) e o crescimento de até 1,4% (cenário otimista). Na média, a produção deve manter estabilidade em relação a 2025, com crescimento de 0,1%, totalizando 848,3 milhões de pares. A projeção foi divulgada pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) no Análise de Cenários, evento on-line realizado na manhã do dia 15 de abril. Conduzido pela economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da Abicalçados, Priscila Linck, e pelo doutor em Economia Marcos Lélis, o encontro contou com apresentações dos cenários econômicos brasileiro e mundial, e os seus reflexos na indústria calçadista.
Ressaltando as incertezas da economia internacional, provocadas sobretudo pelo conflito no Oriente Médio e seus reflexos nos custos produtivos e logísticos, Lélis destacou o desaquecimento do consumo nos Estados Unidos e a pressão inflacionária daquele mercado sobre as taxas de juros. “Os juros de longo prazo aplicados estão ainda muito elevados, de 4,4%. O fato gera dificuldades para a baixa dos juros em outros países, inclusive no Brasil. Isso mantém o endividamento das famílias brasileiras ainda muito elevado”, explica. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o nível é o maior da série histórica, de 80,2%. Em complemento, a população adulta inadimplente alcançou 47,9% (dívidas não pagas há mais de três meses, segundo o Serasa). O fato, segundo Lélis, esgota as condições de consumo ao contrapesar o crescimento da renda no País. “Hoje, 29,3% da renda das famílias está comprometida com dívidas, sendo 10,5% somente com os juros”, acrescenta.
CALÇADOS
Com queda de 1,9% na sua produção em 2025 (para 847,5 milhões de pares), o ano passado foi impactado pela queda nas exportações ao longo do segundo semestre, em função das tarifas impostas pelos Estados Unidos, e pelo desaquecimento do consumo na Argentina, os dois principais destinos dos embarques brasileiros. Com isso, o segmento produtivo mais afetado foi o de calçados casuais e sociais, o mais destinado às exportações. No ano passado, apesar dos impactos mencionados no mercado externo, os embarques aumentaram 6,7%, graças ao crescimento alcançado ao longo da primeira parte daquele ano. Já a produção destinada ao consumo interno, em 2025, caiu 3%.
Segundo Priscila, as importações totais de calçados nos Estados Unidos caíram 8% em 2025, o que significou 170 milhões de pares a menos consumidos naquele mercado. Já no primeiro bimestre de 2026, as importações norte-americanas caíram 12% (menos 49 milhões de pares consumidos). Enquanto isso, a importação do mercado argentino, mesmo tendo aumentado em 2025 (38%) vem em queda desde a segunda parte do ano passado. Nos primeiros dois meses de 2026, as importações totais dos hermanos caíram 15,9%.
Além da queda do consumo nos principais mercados, as exportações brasileiras vêm sendo impactadas pelo incremento dos embarques chineses para alguns dos principais destinos nacionais. Em 2025, segundo Priscila, as exportações chinesas caíram 2%, o que significou a redução de 186 milhões de pares exportados. Já no primeiro bimestre de 2026, os embarques totais do país asiático já cresceram 12%, recuperando as perdas do ano passado. “As tarifas adicionais aplicadas pelos Estados Unidos desorganizaram as cadeias comerciais, de modo que parte das perdas sofridas pelas exportações chinesas àquele mercado foram redirecionadas para países das américas Central e do Sul, e para a África”, comenta Priscila. O fato é ilustrado pelos números. No ano de 2025, as exportações chinesas para a América do Norte registraram queda de 19%. Já para países da América do Sul os embarques aumentaram 4,1%, para países da América Central 2,2% e da África 14,2%.
Conforme Priscila, a queda de produção deve ser amenizada na segunda parte do ano. No primeiro bimestre (dado mais recente), a produção brasileira caiu 11,1%. Para o primeiro trimestre, a projeção é de encerramento com queda de 6,8%. Para o segundo trimestre, o revés projetado é de 4,6%. “Existe um cenário de retomada gradual, tanto do consumo interno quanto das exportações, no segundo semestre”, projeta a economista. “Nos Estados Unidos, a tarifa adicional sobre as importações situa-se em 10%, o que nos coloca novamente em condições de igualdade tarifária com os nossos principais concorrentes internacionais naquele mercado”, explica.