
A morte do menino de 3 anos espancado pelo próprio pai em Viamão acrescentou novos capítulos a um caso que já mobiliza a Polícia Civil e órgãos da rede de proteção à infância. Foi presa no início da tarde desta quinta-feira a mãe do menino, que também deverá responder pelo crime.
Após a confirmação do óbito da criança, a investigação segue em andamento e tenta esclarecer não apenas as circunstâncias do crime, mas também reconstruir a trajetória de uma família marcada por passagens por diferentes estados, histórico de atendimentos pelos Conselhos Tutelares e uma rotina discreta em uma comunidade rural da cidade.
Segundo a delegada Luana Tamiozzo Medeiros, titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Viamão, o inquérito continua em andamento, com novas oitivas, diligências e perícias. Com a morte do menino, o procedimento passou a apurar os crimes de homicídio doloso duplamente qualificado e tortura.
A investigação por tortura não se restringe ao episódio que levou à morte da criança, mas também busca esclarecer possíveis violências praticadas anteriormente contra os demais filhos do casal.
A delegada afirma que o laudo do Instituto-Geral de Perícias (IGP), responsável por apontar oficialmente a causa da morte, ainda não foi encaminhado à investigação. Paralelamente, a Polícia Civil aguarda informações de Conselhos Tutelares de Santa Catarina e São Paulo, estados onde a família já possuía registros envolvendo os menores.
Casa simples em região de sítios
A vários quilômetros do centro urbano de Viamão, em uma estrada acessada através da ERS 040 na localidade de Águas Claras, a rotina é marcada pelo silêncio. Grandes terrenos, casas espaçadas e sítios utilizados por moradores apenas nos fins de semana compõem a paisagem da localidade. Foi nesse cenário que a família passou a viver.
A residência fica aos fundos de um terreno onde há máquinas e equipamentos. Construída em madeira e bastante simples, ainda conservava roupas de crianças estendidas no varal na manhã desta quinta-feira. Desde o dia das agressões, segundo moradores, ninguém mais foi visto entrando ou saindo do imóvel.
A movimentação intensa de viaturas e da imprensa nos últimos dias destoou da tranquilidade habitual da região. “Parecia ser uma família tranquila, mas como eram novos por aqui, não tínhamos tanto contato. Só víamos passar na rua”, relata uma empresária das proximidades, que preferiu não se identificar.
Ela afirma que a comunidade ainda tenta compreender o que aconteceu. “Os moradores estão em choque. É um lugar que, pela tranquilidade, muitos escolhem para morar. Ninguém imaginava uma coisa dessas”, acrescenta.
Apesar de a residência ficar ao lado de uma igreja, moradores afirmam que a família não mantinha qualquer vínculo conhecido com a instituição religiosa. Após a repercussão do caso, surgiram informações de que o pai atuaria como missionário, mas a própria Polícia Civil afirma que ainda não conseguiu confirmar a qual igreja ele estaria ligado.
Histórico em outros Estados
O casal, formado por um norte-americano e uma japonesa, vivia em situação de vulnerabilidade social. Conforme a assistência social de Viamão, a própria família procurou espontaneamente os serviços públicos logo após chegar ao município, buscando atendimento nas áreas de saúde e assistência.
Inicialmente, as equipes identificaram apenas necessidades relacionadas à condição econômica da família. Posteriormente, manchas observadas no corpo de uma das crianças motivaram a criação de uma rede integrada de acompanhamento envolvendo saúde, educação, assistência social e Conselho Tutelar.
Durante esse acompanhamento, o município descobriu que a família já havia sido atendida anteriormente pela rede de proteção de Santa Catarina, onde as crianças chegaram a permanecer acolhidas institucionalmente antes de retornarem aos pais.
A partir dessas informações, o monitoramento passou a ser intensificado. Conforme os relatórios analisados pela assistência social, a família participava das reuniões promovidas pelos serviços públicos, frequentava o CRAS e o CREAS, comparecia às atividades escolares e não apresentava, naquele momento, indícios concretos de violência que justificassem uma medida mais severa. Vizinhos ouvidos pelas equipes também não relataram episódios de agressão. Apesar disso, o caso chegou ao desfecho trágico com a morte do menino.
Agora, a Polícia Civil aguarda o envio da documentação produzida pelos órgãos de proteção de Santa Catarina e de São Paulo para compreender todo o histórico da família antes da mudança para Viamão. O município informou que deverá instaurar uma sindicância para apurar a atuação da rede de atendimento no caso.
Fonte: Guilherme Sperafico / Correio do Povo


