
Uma arrecadação entre amigos para a confecção de camisetas comemorativas terminou em uma investigação sobre extorsão, associação criminosa e agiotagem no Rio Grande do Sul. Segundo a Polícia Civil, um homem perdeu todo o dinheiro em uma plataforma de apostas, passou a recorrer a empréstimos com diversos agiotas para esconder o prejuízo e acabou mergulhando em um ciclo de dívidas que terminou com ameaças de morte contra familiares.
O caso deu origem à Operação Sangria, deflagrada na manhã desta quinta-feira pela 3ª Delegacia de Polícia de Canoas. Foram cumpridos dois mandados de prisão temporária e 11 de busca e apreensão em Porto Alegre, Cachoeirinha e Gravataí. Até o momento, dois investigados foram presos.
Conforme a investigação, após perder integralmente o valor arrecadado, a vítima buscou empréstimos no mercado informal para devolver o dinheiro aos amigos. Sem conseguir pagar os juros cobrados, passou a contrair novas dívidas para quitar as anteriores.
Ao longo da investigação, a Polícia Civil identificou que o homem chegou a dever, simultaneamente, para pelo menos 14 agiotas diferentes. “A vítima entrou em um efeito cascata incontrolável. A cada novo empréstimo para cobrir o anterior, o valor total e o nível de ameaças aumentavam” , afirmou a delegada responsável pela investigação, Luciane Bertoletti.
Sem conseguir mais arcar com as cobranças, o homem deixou o Rio Grande do Sul e fugiu para outro Estado. A partir daí, segundo a Polícia Civil, os integrantes do grupo criminoso passaram a direcionar as cobranças à mãe, à irmã e ao cunhado da vítima.
Os familiares chegaram a realizar diversos pagamentos na tentativa de cessar as ameaças, mas procuraram a polícia quando a situação se tornou insustentável.
De acordo com o delegado regional Cristiano Reschke, o caso evidencia um fenômeno que vem sendo observado pelas forças de segurança. “Esse caso expõe uma chaga social que cresce silenciosamente nas cidades brasileiras: a combinação explosiva entre o vício em jogos de azar online e o crédito predatório da agiotagem, que transforma cidadãos comuns em reféns de um ciclo de endividamento, extorsão e desestruturação familiar”, afirmou.
Segundo ele, a operação também busca demonstrar que a agiotagem vai além da concessão ilegal de empréstimos. “A agiotagem não é um crime menor, é a engrenagem de um sistema de extorsão que destrói vidas, esfacela famílias e exige uma resposta firme do Estado”, acrescentou.
Durante o cumprimento dos mandados, os policiais apreenderam telefones celulares, documentos e outros materiais que, segundo a investigação, reforçam a atuação do grupo criminoso.
A Operação Sangria recebeu esse nome em referência ao objetivo de interromper o fluxo financeiro ilícito e à “sangria” patrimonial e emocional imposta às vítimas, conforme definiu a Polícia Civil.


