
A semana na economia é, antes de tudo, uma semana de inflação. Brasil, Estados Unidos e China divulgam seus índices de preços ao consumidor em dias próximos, e o calendário se organiza em torno de uma mesma pergunta: até que ponto o choque de oferta no petróleo, ainda sem horizonte claro de resolução, continuará contaminando a trajetória de preços nas principais economias e reduzir o espaço de manobra dos bancos centrais. O IPCA deve confirmar a mensagem já antecipada pelo IPCA-15: inflação corrente ainda pressionada, com atenção especial aos serviços e aos itens intensivos em mão de obra, justamente os componentes que mais preocupam o Copom por refletirem inércia, renda elevada e demanda aquecida.
A curva de juros entrou na semana mais próxima da divisão entre um corte de 25 pontos-base e uma pausa já na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de 17 de junho. O debate, portanto, deixou de ser sobre a continuidade do afrouxamento e passou a ser sobre o momento em que o Banco Central interromperá o ciclo. E o que vem pela frente, em quase todas as frentes, recomenda cautela.
“A inflação de serviços segue pressionada, especialmente nos componentes mais sensíveis ao mercado de trabalho. O emprego continua resiliente, com renda e massa salarial em patamares historicamente elevados. O PIB do primeiro trimestre cresceu acima do esperado por parte do mercado, sustentado pela demanda doméstica. E a produção industrial de abril reforçou a leitura de uma atividade ainda resistente ao aperto monetário”, diz Leandro Manzoni, analista da Investing.com.
PROJEÇÕE DE SELIC
Além disso, diz ele, o câmbio voltou a se depreciar na última semana, acrescentando um canal adicional de pressão sobre expectativas e preços. “Cada vetor, isoladamente, reduz a margem para cortes mais amplos. Somados, ajudam a explicar por que o mercado passou a enxergar uma Selic terminal mais alta”.
O verdadeiro ponto de atenção, porém, está além das manchetes. A questão é se a revisão das projeções de Selic vai se transmitir às expectativas de inflação de 2027 e, sobretudo, de 2028 — horizonte que tende a ganhar peso crescente na comunicação do Banco Central à medida que o calendário avança.
Para Manzoni, esta é a leitura mais delicada da semana: se as expectativas mais longas não cederem, a mensagem implícita será a de que uma Selic mais alta está servindo apenas para impedir nova deterioração do cenário, e não necessariamente para reancorar a inflação na meta. “Nesse caso, não seria surpresa que economistas passassem a incorporar uma taxa terminal ainda mais elevada nas próximas semanas, o que significaria possibilidade de apostas em retomada do ciclo de alta da Selic”, comenta.
Esse diagnóstico, porém, exige cuidado. Parte da piora das projeções está embaçada pelo choque do petróleo e pela incerteza em torno do Estreito de Ormuz, rota crítica para o fluxo global de petróleo e gás. Como se trata de um choque de oferta externo, o Banco Central não controla sua origem.
Mas controla a forma como responde a seus efeitos secundários sobre expectativas, serviços, câmbio e preços administrados – em meio a uma demanda doméstica resiliente que vinha de antes da guerra. É essa distinção que deve orientar a leitura do mercado. Dois indicadores domésticos ajudam a calibrar o quadro.