A nostalgia não pode condenar o nosso presente de construção de time. Escolhi a esperança

Antes de qualquer coisa, este não é um bate-papo pinçado das ruas de Paris, Lyon, Marselha, Toulouse ou até mesmo de Valência, Madri e Barcelona. Franceses e espanhóis não estão preocupados com o potencial de suas seleções. Nos Azuis, há jogadores de altíssimo nível nos melhores times do mundo: Mbappé, Dembélé, Olise e mais uma lista respeitável. Sem contar o tempo de trabalho de Didier Deschamps. Já a Fúria conta com uma geração nova, liderada por Yamal e com o selo de campeã europeia.
Ninguém discute aqui a qualidade e a superioridade, por ora, dessas duas seleções. A questão é tentar trazer (que dose terrível de pretensão a minha) o torcedor brasileiro mais para o chão, para a realidade. Quando Zidane liderou os franceses para o primeiro título em 1998, tínhamos Rivaldo, Ronaldo, Roberto Carlos e Cafu. Algo semelhante aconteceu em 2006, com esses gênios ainda no elenco. Hoje, no imaginário nostálgico, esses grandes jogadores são pintados como invencíveis. Nenhum time ou jogador é, foi ou será invencível.
Atualmente, ninguém diz que o elenco brasileiro é melhor que o francês. Talvez um espanhol pudesse se atrever. Mas, acreditem, não perdemos em qualidade para Argentina, Inglaterra etc. Alguém, com certa razão, falará de Portugal e sua lista de 26 jogadores cheia de grandes nomes. Eles não sonham com a nossa tradição?
Temos um dos melhores treinadores da história, o melhor de todos os 48 que comandarão seleções na Copa. Temos um melhor do mundo que ainda nos deve um desempenho melhor de amarelo, sim. Um dos líderes do Barcelona, que sente um pouco quando a pressão sobe na seleção. Mas também um cara que abre o meio-campo, fez história no Real Madrid e teve uma despedida de ídolo no United. A zaga só tem o capitão bicampeão da Europa e o campeão da Premier League, vice da Champions, escolhidos entre os melhores da posição no mundo.
O Brasil não é favorito, óbvio. Agora, cravar que não ganharemos porque não temos mais os craques do passado é sentar-se no conforto da nostalgia. Carlo Ancelotti tem pouco mais de um ano no cargo. Isso é preocupante. O trabalho foi acelerado.
Sabemos que vamos jogar o Mundial sem tanta badalação, e talvez isso seja até bom. Nosso atraso é muito mais nocivo do que não ter os craques do passado. Até porque a França não tem um Zidane, e a Espanha não tem um Iniesta. As seleções campeãs não vivem de fantasmas. Elas se renovam. Vivem das gerações que conseguem construir.
Quem sabe não estamos construindo uma vencedora?