
Diálogos entre três policiais civis e Milena Ruppenthal Domingues, companheira do policial militar Cristiano Domingues Francisco, foram registrados no cumprimento de mandado de busca e apreensão na casa dela, em Cachoeirinha. O material está em sigilo nos autos do desaparecimento da ex-esposa do PM, Silvana Germann de Aguiar, e dos pais dela, Isail e Dalmira, vistos pela última vez entre os dias 24 e 25 de janeiro. O PM é suspeito de matar os três.
A gravação ocorreu em 13 de março. É possível ouvir as vozes de Milena e de duas policiais, sendo uma delas escrivã da 2ª DP de Cachoeirinha, à frente da investigação, além de um inspetor do Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) de Bagé. Veja a live da Rádio Guaíba sobre o caso aqui.
O áudio tem mais de 20 minutos, sendo em maioria respostas de Milena às indagações da equipe. Foram excluídas as conversas sobre a rotina dela e de Cristiano nos dias em que a família Aguiar sumiu, porque isso já foi divulgado na Rádio Guaíba. A reportagem sintetiza a interação de Milena com os agentes, que tentam persuadi-la a ser ouvida novamente na 2ª Delegacia de Polícia (DP) de Cachoeirinha, mas não conseguem.
A transcrição completa de cada trecho segue ao longo da matéria, dividida em partes, com os respectivos áudios. Confira o vídeo com legendas:
Espia na janela: ZH, RBS, Correio do Povo e Record
Segundo os policiais, a intenção deles não seria colher um relato formal, apenas bater papo com Milena. “Não vai ser filmado. A gente vai conversar, é diferente”, diz uma das policiais. Outra explica: “não vai ser depoimento oficial”.
A dupla tenta suavizar a persuasão. “É tipo o que estamos fazendo aqui […] a gente está conversando contigo, porque tu está no teu lugar de conforto, de tranquilidade”, amenizam elas.
Milena não faz oposição, mas avalia não ter qualquer informação nova em relação às oitivas anteriores. É então que o inspetor menciona a exposição na imprensa como possível tática de constrangimento.
“Espia na tua janela, olha quem está na frente da tua casa: Zero Hora, RBS, Correio do Povo, Record… tu quer sair agora e subir em um carro da polícia? E ser filmada, aparecer tua cara, sendo conduzida. É ruim, né?”, considera o inspetor.
Milena: Não tenho nada contra dar outro depoimento, não tem problema nenhum
Inspetor: Tá, mas fato novo né…
Escrivã: Não vai ser filmado, a gente vai conversar, aí é diferente
Agente: Não é depoimento oficial, é uma conversa
Escrivã: Que nem a gente está fazendo aqui… [inaudível]
Escrivã: Aqui a gente está conversando contigo porque tu está no teu lugar de conforto, de tranquilidade. Inspetor: Espia a tua janela, olha quem está na frente da tua casa agora: Zero Hora, RBS, Correio do Povo, Record… tu quer sair agora e subir em um carro da polícia? E ser filmada, aparecer tua cara, sendo conduzida, é ruim, né?
Milena: É ruim
Inspetor: [inaudível] já era para chegar e te levar, porque, hoje, os velhos estão mortos
“O que a gente bota no papel o juiz compra”
A escrivã sugere que a falta de colaboração de Milena poderia gerar consequências a terceiros, além de indiciamentos com teor desfavorável. Ela ainda garante que o juiz da 1ª Vara Criminal aceitaria qualquer alegação da Polícia Civil no inquérito.
“Dá para costurar todo mundo […] o que a gente bota no papel o juiz compra”, afirma a escrivã da 2ª DP de Cachoeirinha.
O inspetor da Draco também assume tom intimatório, assegurando que Milena será presa e agredida por outras apenadas na cadeia. Na suposição dele, isso bastaria para que ela falasse sobre o caso da família Aguiar.
“Sabe quando tu vai querer falar conosco e nós não vamos querer falar contigo? Quando estiver lá, presa, com um monte de mulher te cagando a pau. Entrar lá [cadeia] por tráfico, roubo… tu chega bem. Mas o que fizeram, tu chega mal. O laço vai te pegar lá dentro. Aí tu vai querer conversar e a gente não vai querer, vai querer que tu fique presa, tomando laço. O júri te arrebenta”, agoura o inspetor.
Inspetor: Tem jeito de fazer as coisas
Escrivã: Dá para costurar todo mundo… o que a gente bota no papel o juiz compra
Inspetor: E inclusive já veio cobrança aí nas gurias [policiais], do delegado, porque tu não está presa, te deram uma chance
Escrivã: eu disse, não, delegado, isso é violência psicológica, na sala Maria da Penha a gente vê muito isso, mulher que se envolvem em tráfico
Agente: de dentro da cadeia os caras dominando
Escrivã: Bah, pelo amor de Deus, o que eles fazem…
Escrivã: vendendo coisa na cadeia
Escrivã: tu não precisa disso guria, tu tem 28 anos, aí…
Inspetor: Tu não estava lá quando ele matou, não ajudou a matar
Inspetor: Tu tá pagando pra ver
Inspetor: Sabe quando tu vai querer falar conosco e nós não vamos querer falar contigo?Inspetor: Quando estiver lá, presa, com um monte de mulher te cagando a pau.
Inspetor: Tu entrar lá [cadeia] por tráfico, roubo… tu chega bem, mas o que fizeram, tu chega mal. O laço vai te pegar lá dentro.
Inspetor: Aí tu vai querer conversar e a gente não vai querer. Vamos querer que tu fique presa, tomando laço.
Inspetor: O júri te arrebenta
Enteado em abrigo e mãe morta na prisão
Esse inspetor menciona o filho de nove anos de Cristiano e Silvana, que é enteado de Milena. O menino permanece sob a guarda da avó paterna mas, na visão dos três policiais civis, poderá ser enviado a um abrigo, onde sofrerá maus-tratos.
“O pobre do guri, que não tem nada a ver, vai lá para esses troços de criança, de menor… lá vai ter um monte de drogados. O guri bem criado vai ser judiado, para quê?”, afirma o inspetor. Uma das colegas dele adiciona: “O Estado não cuida, isso é fato.”
O inspetor ainda cita a mãe de Milena. “Tua mãe vai pagar por um troço que não tem nada a ver, que tentou ajudar depois […] ela vai ser presa, vai morrer lá dentro”. Antes de sair do imóvel, ele enfatiza: “Em outros tempos, se não fosse falar por bem, falaria por mal […] não vou me incomodar contigo. Para mim, tu é mais uma que passou. Para mim, tu é mais ibope ainda, é mais gente que eu prendi na minha vida.”
Inspetor: E o pobre do guri, que não tem nada que ver, vai lá para esses troços de criança, de menor…
Agente: Abrigo
Inspetor: Sabe como é abrigo, né… um monte de drogado, vão judiar o guri
Inspetor: O guri bem criado vai ser judiado,
Escrivã: abuso…
Inspetor: Pra quê, cara?
Agente: O Estado não cuida, isso é fato.
Inspetor: Tira tua mãe da jogada.. tu não abraça tua mãe, vai abraçar quem?
Inspetor: Não é nem o Paulo, tu não abraça tua mãe, tu não abraça tua mãe cara
Inspetor … pagar por um troço que não tem nada que ver, que ela tentou ajudar depois
Inspetor: Isso é o fim do mundo pra mim
Inspetor: Ela daria a vida dela por ti
Milena: E eu daria a minha por ela
Agente: tua mãe não vai nem te levar sacola na cadeia se precisar
Escrivã: Vai estar todo mundo preso
Inspetor: E ela vai morrer, porque lá é o inferno
Inspetor: Lá, está vendo esse espaço que estamos aqui? Dez mulheres juntas para dormir
Inspetor: E tua mãe, cara
Inspetor: E hoje, quando ela souber que graças a ti, ela vai ser presa
[Inaudível]
Inspetor: Parece que tu quer pagar para ver
Milena: Não, não quero pagar para ver, eu não tenho o que falar
Inspetor: Tu tem, tu sabe que tu tem o que falar,
Inspetor: mentindo, não sou trouxa
Milena: Eu não estou tirando vocês para trouxa em momento nenhum
Milena: Eu respeito o trabalho de vocês
Inspetor: Não vou me incomodar, para mim, tu é mais uma que passou
[Inaudível]
Inspetor: Para mim, tu é mais ibope ainda, é mais gente que eu prendi na minha vida
[Inaudível]
Inspetor: Só que tu é uma ingrata que botou uma velha na cadeia para morrer lá dentro, ela vai morrer.
Inspetor: Ela vai morrer lá dentro
Agente: tu não vai ir então, na delegacia?
Milena: Não.. não..
Seis indiciados por desaparecimento de família
Cristiano Domingues foi indiciado por feminicídio, duplo homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, abandono de incapaz, falsidade ideológica, furto qualificado, fraude processual, falso testemunho e associação criminosa. Ele está preso preventivamente no Batalhão de Polícia de Guarda (BPG), em Porto Alegre.
Milena Ruppenthal Domingues foi indiciada por furto qualificado, ocultação de cadáver, falso testemunho, fraude processual e associação criminosa.
Wagner Domingues Francisco, irmão do PM, foi indiciado por ocultação de cadáver, fraude processual e associação criminosa.
Paulo da Silva, amigo de Milena, foi indiciado por fraude processual, falso testemunho e associação criminosa.
Maria Rosane Domingues Francisco e Ivone Ruppenthal, respectivamente mães de Cristiano e de Milena, foram indiciadas por fraude processual e associação criminosa.
Até o momento desta publicação, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) ainda não havia apresentado denúncia à Justiça.
O que diz o advogado Jeverson Barcellos, que representa Cristiano Domingues Francisco
Jeverson Barcellos não comenta o andamento da ação. Entretanto, reafirma que seu cliente diz não ter qualquer envolvimento com o sumiço e morte da família Aguiar
O que diz o advogado Ricardo Breier, que representa Wagner Domingues Francisco
A Defesa técnica de WAGNER DOMINGUES FRANCISCO, com o senso de responsabilidade que o momento exige, vem a público manifestar-se acerca do Inquérito Policial que apura as circunstâncias envolvendo o desaparecimento da família Aguiar, no município de Cachoeirinha/RS. A Defesa tomou conhecimento, exclusivamente por intermédio da mídia e de coletiva de imprensa, da existência de 37 medidas cautelares, além de buscas, apreensões e indiciamentos, sem que lhe tenha sido assegurado, até o presente momento, acesso aos respectivos expedientes, circunstância que impede o pleno conhecimento das teses investigativas.
Importa destacar que as imputações até então divulgadas consistem, neste estágio, em meras hipóteses investigativas, ainda não submetidas ao contraditório, sendo o inquérito policial, por sua natureza, procedimento de caráter unilateral. Reitera-se, por fim, que WAGNER DOMINGUES FRANCISCO sempre esteve, e assim permanecerá, à inteira disposição das autoridades. A Defesa aguarda o acesso integral aos elementos de prova para manifestação oportuna e aprofundada, confiante de que o devido processo legal conduzirá ao pleno esclarecimento dos fatos, com a consequente demonstração de sua inocência e a prevalência da Justiça.
O que diz a advogada Suelén Lautenschleger, que representa os outros indiciados
Suelén Lautenschleger não quis comentar os diálogos envolvendo policiais civis na casa de Milena, enfatizando o sigilo dos autos. Ela reforça a inocência dos clientes. Leia a nota:
A defesa de Milena, Paulo, Maria Rosane e Ivone informa que, ao longo do regular trâmite processual, será devidamente demonstrada — com a garantia do contraditório e da ampla defesa — a inocência dos envolvidos, bem como a fragilidade dos indícios apresentados no inquérito policial.
Ressalta-se, ainda, que serão levadas ao conhecimento do Poder Judiciário as irregularidades ocorridas durante a investigação, somadas a eventuais abusos praticados, os quais serão oportunamente apurados pelos meios legais cabíveis.
A defesa reitera sua confiança na Justiça e no devido processo legal, certos de que os fatos serão esclarecidos de forma técnica e fundamentada.
Declaram-se absolutamente inocentes das acusações