
A instabilidade política e financeira do Paraguai pode se tornar um obstáculo à integração regional e às negociações com o Brasil. O cenário, desencadeado pelo colapso do banco Ueno e seguido pela renúncia do presidente Santiago Peña, pode congelar negociações estratégicas, dificultar decisões sobre Itaipu e comprometer a confiança de investidores.
Em um primeiro momento, a tendência é de um esfriamento das relações entre os dois países. Outro reflexo pode ser no Mercosul — bloco econômico formado por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Venezuela (atualmente suspensa).
Ainda que tenha uma economia menor que a do Brasil e da Argentina, a instabilidade paraguaia pode afetar decisões estratégicas do bloco, observa o coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR, João Alfredo Lopes Nyegray.
“O bloco está avançando em sua agenda de acordos comerciais, inclusive com a União Europeia, e discutindo formas de ampliar sua inserção econômica internacional. Uma crise política em um dos países-membros pode dificultar a coordenação de posições, retardar decisões e criar novas incertezas para os parceiros externos”, diz.
No caso do Brasil, a questão principal será a capacidade do Palácio do Planalto de manter o diálogo com o governo paraguaio, principalmente em temas mais sensíveis, como Itaipu, comércio bilateral, infraestrutura de fronteira e integração energética.
Negociações e Itaipu
A instabilidade política também pode comprometer o andamento de acordos bilaterais. Para o especialista em relações governamentais e professor do Ibmec Brasília, Eduardo Galvão, o impacto mais imediato tende a ser a desaceleração das negociações que dependem de decisões políticas e compromissos financeiros.
Brasil e Paraguai mantêm uma agenda estratégica envolvendo energia, comércio, infraestrutura e integração produtiva. Entre os assuntos que exigem maior atenção está a revisão do Anexo C do Tratado de Itaipu, que estabelece as bases financeiras e comerciais da usina binacional.
“É importante distinguir, entretanto, os acordos que já estão em vigor das negociações que ainda precisam ser concluídas. Os compromissos internacionais não deixam de existir porque um presidente renunciou ou porque o país enfrenta uma crise política. O problema está na capacidade de tomar novas decisões, garantir recursos e implementar o que foi negociado”, explica Galvão.
Reflexos no Mercosul
No âmbito do Mercosul, a preocupação envolve tanto a continuidade dos acordos quanto a imagem de estabilidade econômica e institucional do bloco. Para Galvão, a crise paraguaia pode dificultar a coordenação entre os países, justamente em um momento importante para a implementação do acordo comercial com a União Europeia, em aplicação provisória desde maio de 2026.
O especialista lembra que o bloco já enfrentou consequências regionais de crises políticas. Em 2012, o Paraguai foi suspenso da participação nos órgãos do Mercosul após o julgamento político que destituiu o então presidente Fernando Lugo.
Fonte: R7

