
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre para investigar furtos e receptação de fios, cabos e materiais metálicos na Capital recebeu, na sua terceira reunião ordinária, o coronel Márcio Luiz da Costa Limeira, comandante do Comando de Polícia Militar da Capital (CPC), na manhã desta segunda-feira.
O objetivo da reunião foi entender como é a atuação no combate de furtos de fios e como funciona a receptação e a compra do material, além da relação com a rede criminosa. “Nossa intenção como cidade de Porto Alegre é poder entender o método desse tipo de combate a essa rede criminosa, bem como identificar o que podemos fazer como vereadores para poder alterar a legislação, melhorar a nossa lei e também facilitar o trabalho dos órgãos de segurança”, disse o proponente e presidente da CPI, vereador Ramiro Rosário (Novo).
Em 2025, ocorreram 74 operações específicas com foco em pontos de receptação de fios e materiais metálicos. Já este ano, foram 12. Limeira, que foi empossado como comandante do CPC em março, pontuou que o sistema afeta diferentes esferas da ordem pública, e que estão sendo desenvolvidas diversas operações integradas com o policiamento ostensivo, como a Brigada Militar e a Secretaria de Segurança Pública, também com apoio do comando ambiental. Trouxe como exemplo a operação Fios e Cabos, que ocorreu no loteamento Santa Terezinha, conhecido como vila dos papeleiros, nas proximidades da avenida Voluntários da Pátria, e a operação Lei e Ordem.
Limeira apontou uma redução de casos de furtos no primeiro trimestre de 2025. Ainda que tenham ocorrido cinco casos por dia, houve uma redução de 691 casos para 426 no primeiro semestre, uma queda de 38%. A Brigada Militar realizou uma prisão a cada três dias por furto de fios e cabos em 2026, sem contabilizar as prisões por receptação nas operações integradas. No primeiro trimestre deste ano, foram realizadas 29 prisões no primeiro trimestre, antes do feriado de Páscoa.
O alto número de casos que ainda permanece é justificado por Limeira como um “crime de oportunidade”. “É um crime de baixa complexidade operacional para quem executa”, afirma. Uma atividade rotineira, em que os indivíduos se especializam na prática, um trabalho de custo-benefício, considerando o custo de locação, e a reduzida condição de ser capturado são os principais fatores, aponta.
“Nós só temos essa quantidade de ações, justamente porque existe essa cadeia de receptação desse material e encaminhamentos”, disse. Ele defendeu a continuidade das integrações entre a fiscalização no policiamento ostensivo, a responsabilização administrativa e o emprego de tecnologias para prevenção estrutural.
Ele também explicou como funciona a receptação de materiais. No local, havia uma alta quantidade de estabelecimentos que o recebiam. “Esse material, na maioria das vezes, não tem a sua identificação e rapidamente os delinquentes acabavam fazendo a sua transformação. Tem que queimar os fios, que é a cena que nós vimos eventualmente naquela comunidade”, diz.
Limeira atribui o sucesso da operação como estratégia de presença policial. “Nós tínhamos ali quem praticava, o comprador e na maioria das vezes acaba dizendo que não sabia qual era a origem daquele material. A gente tinha todo um sistema logístico que facilitava ou dificultava para as forças policiais a atuação”, afirmou.
Limeira ainda relacionou como exemplo de combate de receptação a operação que ocorreu entre 2015 e 2016, de enfrentamento ao desmanche do roubo de veículos, com foco na receptação. “Sem dúvida, houve a prisão em flagrante, a investigação dos responsáveis, mas em muitos casos o que houve foi a medida administrativa com a perda do material e reduzindo o interessado naquele tipo de material. Houve, com certeza, uma redução na influência e no regime desse tipo de ocorrência”, disse o comandante.
Sem trazer dados quantitativos, o comandante afirmou que, pela percepção da guarnição, é possível relacionar o crime com o narcotráfico, e que os indivíduos que realizam a ação são viciados em algum tipo de entorpecente. “Tem uma cadeia de interesse, dentro da teoria do lucro e benefício. Se não tiver para quem vender o material, se isso não não for atrativo, não tem porque se colocar em alguns casos até em risco”.
Entre os convidados para a reunião de hoje, também estava a delegada de polícia Fernanda Drews Amorim. De acordo com o presidente da comissão, ela havia confirmado a presença, mas depois solicitou que o convite fosse feito ao governo do Estado para autorizá-la a estar presente.
A reunião contou com quórum de 10 vereadores. Nos próximos encontros, a comissão deve ouvir representantes desses setores que trabalham com reciclagem de materiais e que trabalham com receptação de fios e cabos. Entre os ouvintes, estão associações de recicladores de materiais e empresas específicas que atuam com esse tipo de atividade. A CPI também tem como vice-presidente o vereador Marcos Felipi Garcia e como relatora a vereadora Mariana Lescano.
Fonte: Correio do Povo


