
Mayanna Angelina Rodgers, de 29 anos, mãe do menino Oliver Grayson, de 3 anos, deixou a Penitenciária Estadual Feminina de Guaíba por volta das 11h45min desta sexta-feira, acompanhada dos três advogados que a representam. A soltura ocorreu após decisão da 1ª Vara Criminal do Tribunal do Júri e de Execução Criminal da Comarca de Viamão, que substituiu a prisão preventiva por medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica.
Após a soltura, a defesa pretende buscar alternativas para que Mayanna volte a ter contato com os filhos, que permanecem acolhidos em um abrigo. Segundo o advogado André von Berg, que atua no caso ao lado das advogadas Isabel Cochlar e Juliana Braun Martins, a equipe já trabalha para tentar viabilizar o encontro, respeitando as determinações judiciais. “Vamos tentar que ela tenha pelo menos um contato com os filhos e vamos continuar na defesa dela, esperando que em breve seja designada a audiência de instrução e a oitiva das testemunhas”, afirmou.
Conforme o advogado, o filho mais velho, de 9 anos, já teria manifestado o desejo de ver a mãe. Segundo ele, uma assistente social do abrigo comunicou essa manifestação ao Judiciário, que autorizou o contato, mas o encontro ainda não chegou a ocorrer. A defesa pretende informar formalmente que Mayanna deixou o sistema prisional e sugerir que a reunião seja realizada no Fórum de Porto Alegre ou em outro local considerado adequado.
A mãe, porém, continua proibida de se aproximar ou manter contato com os filhos, conforme as medidas cautelares estabelecidas na decisão que autorizou a soltura. A eventual retomada da convivência depende, ainda, dos encaminhamentos judiciais.
Para a defesa, prisão não era necessária
Von Berg afirmou que a defesa apresentou o pedido de liberdade ao Judiciário, embora o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) não tenha concordado com a solicitação. Segundo ele, o juiz considerou os argumentos apresentados e determinou a substituição da prisão preventiva por medidas cautelares.
“Não havia mais justificativa jurídica para que ela ficasse presa, já que ela não estava sendo mais acusada de homicídio, apenas e tão somente da tortura por omissão”, declarou o advogado.
Mayanna responde por suposta omissão diante de agressões sofridas pelas crianças, enquanto a investigação que a relacionava ao homicídio doloso qualificado de Oliver foi arquivada em relação a ela. O processo por tortura por omissão segue em andamento.
Após a saída do presídio, segundo von Berg, Mayanna estava emocionada e ainda assimilava a notícia da soltura. O advogado afirmou que ela ficará provisoriamente na residência de uma pessoa próxima à defesa, enquanto busca uma solução de moradia.
A mulher deverá cumprir recolhimento domiciliar noturno, das 20h às 6h, e nos dias de folga, além de usar tornozeleira eletrônica. Também está proibida de deixar a região da comarca de Porto Alegre, de manter contato com os filhos e de se aproximar deles. A decisão determina ainda a entrega do passaporte e o comparecimento aos atos processuais.
A defesa também pretende retomar contato com familiares de Mayanna que vivem nos Estados Unidos, para avaliar a possibilidade de virem ao Brasil. A expectativa dos advogados é de que a mulher possa retomar a convivência e a guarda dos filhos.
Defesa do pai também se manifestou
Assim como a defesa de Mayanna, os advogados Ismael Schmitt e Jader Santos, que representam D’Andre Grayson, também se manifestaram por meio de nota após a confirmação da liberdade provisória. Eles defendem que a mulher possa restabelecer o convívio com os filhos e dizem que apresentarão provas para garantir um “julgamento justo” ao pai.
Confira na íntegra:
“A defesa técnica de D’Andre Grayson informa que tomou ciência da decisão judicial que revogou a prisão preventiva da Sra. Mayana, mantendo, contudo, a custódia cautelar do seu constituído.
A defesa recebe a decisão com serenidade, mas lamenta que a genitora, embora livre do cárcere, permaneça privada da convivência com as crianças, com as quais mantém estreito e indiscutível vínculo afetivo.
Espera-se que, em breve, esse convívio materno-filial seja restabelecido.
Por fim, a defesa reitera que, no decorrer da instrução criminal — sob o crivo do contraditório e da ampla defesa —, apresentará ao juízo competente os fatos, provas e argumentos necessários para assegurar um julgamento justo, bem como, no prazo legal, serão devidamente protocolados a resposta à acusação e os requerimentos cabíveis.”
Relembre o caso
Conforme a denúncia do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), o pai do menino, um missionário norte-americano identificado como D’andre Jermaine Grayson, agrediu Oliver após se irritar porque a criança não lhe deu “bom dia”. Ele teria desferido socos contra o menino e bateu sua cabeça contra o piso, causando traumatismo cranioencefálico grave.
A vítima morreu em 8 de julho. O homicídio foi denunciado com as qualificadoras de motivo fútil, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima, além das circunstâncias de a vítima ser menor de 14 anos e descendente do denunciado.
Além da denúncia ao pai pelo homicídio, conforme o MPRS, entre o início de 2024 e julho de 2026, quatro crianças da família foram submetidas a intensos sofrimentos físicos e psicológicos em São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, culminando com a morte de Oliver em Viamão.
A denúncia aponta que o pai agredia os filhos com socos, tapas, mordeduras e espancamentos com fios e cordas como forma de castigo por motivos banais. As quatro imputações de tortura foram denunciadas com agravantes relacionados ao fato de as vítimas serem descendentes, menores de 12 anos e estarem inseridas no ambiente doméstico e familiar.
A mãe responde pelo crime de tortura por omissão porque, conforme apurado na investigação, tinha conhecimento das agressões, presenciava episódios de violência e deixou de impedir os crimes ou comunicar os fatos às autoridades, apesar do dever legal de proteção decorrente do poder familiar. Por esse motivo, ela não foi denunciada pelo homicídio ocorrido em julho deste ano.
Fonte: Guilherme Sperafico / Correio do Povo

