
O ciclo em que a demografia funcionou como um impulso natural para a economia do Rio Grande do Sul chegou ao fim. A constatação é o ponto central da segunda nota técnica da série “Estudos em Crescimento Econômico e Produtividade”, produzida pelo Instituto Fecomércio-RS de Pesquisa (IFEP-RS). Se o primeiro estudo da série mostrou que o estado teve o menor crescimento do PIB do país entre 2002 e 2023 e não contou com um motor claro de crescimento, a nova nota mostra que ter uma parcela cada vez maior da população trabalhando, uma das forças que ajudaram a renda por habitante no passado, terá capacidade cada vez menor de contribuir nas próximas décadas.
Segundo o levantamento, o chamado “bônus demográfico” do Rio Grande do Sul terminou ainda em 2014, quando os gaúchos entre 15 e 64 anos chegaram a representar 70% da população, o maior patamar da série histórica. A partir de então, essa proporção começou a cair. O pico no estado ocorreu três anos antes do registrado no Brasil, em 2017. E essa perda de força não é apenas uma projeção: a contribuição da estrutura etária para o crescimento da renda por habitante já caiu mais de 90%, de 0,81 ponto percentual ao ano entre 2002 e 2008 para apenas 0,07 entre 2019 e 2023.
A melhora recente do mercado de trabalho deu algum fôlego ao crescimento, principalmente entre 2019 e 2023, com o desemprego recuando de 8,1% para 5,3%. Mas esse avanço veio, em grande parte, da recuperação do emprego após anos mais fracos. Com a desocupação já próxima dos menores níveis da série histórica e taxas de participação relativamente altas em várias faixas etárias, o estado tem menos espaço para sustentar o crescimento apenas com mais gente trabalhando.
NOVO MODELO
Os dados da pesquisa deixam claro o surgimento de um novo momento econômico e social para o estado, na análise do presidente do Sistema Fecomércio-RS, Luiz Carlos Bohn. “Os dados da segunda nota do IFEP deixam evidente uma transformação profunda na realidade gaúcha. Por décadas, contamos com uma estrutura populacional favorável, que impulsionou nossa economia. Mas esse ciclo se encerrou. O envelhecimento populacional nos impõe a urgência de agir sobre a eficiência, pois não poderemos mais crescer apenas aumentando o número de trabalhadores. Para garantir o bem-estar e o avanço da renda das famílias gaúchas nos próximos anos, a sociedade e o setor produtivo precisam focar em reformas e investimentos que destravem o ambiente de negócios e ampliem a eficiência da nossa economia”, avalia.
Para dimensionar o desafio até 2040, o IFEP elaborou dois exercícios combinando as projeções populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com a produtividade crescendo no mesmo ritmo das últimas duas décadas. O resultado é uma desaceleração da renda por habitante: de 1,05% ao ano entre 2002 e 2023 para algo entre 0,56% e 0,83% ao ano, dependendo da evolução da participação no mercado de trabalho e da taxa de ocupação.
Em termos simples, o estudo compara dois caminhos para o Rio Grande do Sul até 2040. Se o estado conseguisse repetir o crescimento da renda por habitante observado nas últimas duas décadas, o PIB per capita chegaria a cerca de R$ 78 mil. No exercício que isola o efeito do envelhecimento da população, seguindo as projeções do IBGE e sem acelerar a produtividade, que cresceu em média 0,65% ao ano entre 2002 e 2023, esse valor ficaria em aproximadamente R$ 71,8 mil. A diferença é de cerca de R$ 6,2 mil por habitante. Considerando toda a população gaúcha projetada para 2040, isso representa R$ 67,7 bilhões a menos no PIB gaúcho, valor equivalente, como referência de escala, a 9,2% do PIB do estado em 2023. O resultado ajuda a dimensionar quanto a mudança demográfica pode reduzir o crescimento gaúcho nas próximas décadas.
CRESCIMENTO
A mudança demográfica já está em curso. No RS, a parcela da população entre 15 e 64 anos cairá de 68,1% em 2023 para 64,8% em 2040. No Brasil, essa proporção ainda será de 67,2% em 2040. A diferença mostra que o Rio Grande do Sul está em uma etapa mais avançada da transição demográfica e sentirá antes os efeitos do envelhecimento da população sobre o mercado de trabalho e o crescimento.
Mesmo para repetir o crescimento de 1,05% ao ano observado entre 2002 e 2023, um ritmo já baixo na comparação com outros estados, o Rio Grande do Sul precisaria acelerar a produtividade do trabalho. Pelos exercícios do IFEP, a produtividade, que cresceu 0,65% ao ano entre 2002 e 2023, teria de avançar entre 0,87% e 1,14% ao ano. Na prática, isso significa acelerar seu ritmo de crescimento entre 34% e 75%.
Como pondera o diretor-executivo do IFEP, Lucas Schifino, elevar o rendimento por trabalhador deixou de ser uma alternativa e virou condição para o desenvolvimento. “A transição demográfica ocorreu antes e de forma mais intensa no RS do que no restante do país. Nas últimas duas décadas, tivemos uma ajuda importante da demografia para o crescimento da renda por habitante, mas essa contribuição praticamente acabou. Agora, mesmo para repetir um crescimento de apenas 1,05% ao ano, a produtividade terá de avançar entre 34% e 75% mais rápido. Ou seja, manter um desempenho que já foi baixo exigirá mais produtividade do que antes.”

