
O homem executado a tiros na manhã desta segunda-feira, em frente a uma clínica de fisioterapia, no bairro Santana, em Porto Alegre, já havia sobrevivido a uma tentativa de homicídio registrada anteriormente em Canoas. Identificado como Jaider Torrão Ferreira Júnior, de 35 anos, ele foi morto com dezenas de disparos quando chegava para atendimento médico na rua Gastão Rhodes, nas proximidades da avenida Vicente da Fontoura.
Natural de Canoas, Jaider utilizava tornozeleira eletrônica e possuía antecedentes criminais. Conforme a Brigada Militar, ele já havia sido alvo de um atentado no ano passado, em Canoas, ocasião em que quatro suspeitos foram presos.
Segundo as informações apuradas até o momento, a vítima chegou ao local dirigindo um veículo Peugeot, estacionou e desembarcou para atravessar a rua em direção à clínica, onde realizaria uma sessão de fisioterapia. Foi nesse momento que criminosos, que aguardavam em um Renault Captur branco estacionado em frente ao estabelecimento, desembarcaram e abriram fogo.
Os disparos atingiram principalmente a região da cabeça da vítima, que morreu no local antes da chegada do socorro. No cenário do crime, peritos localizaram cerca de 30 cápsulas de munição espalhadas pela via. A avaliação preliminar indica que Jaider pode ter sido atingido por 20 e 22 disparos, número que ainda será confirmado pelo exame de necropsia.
Após a execução, os autores roubaram um táxi para fugir. O motorista não foi levado pelos criminosos. O veículo foi abandonado pouco tempo depois, na rua São Luís, sobre a calçada, na entrada de um prédio residencial. No local, os suspeitos embarcaram em outro automóvel e conseguiram escapar.
O Renault Captur utilizado na emboscada permaneceu no local do crime. Conforme a investigação, o veículo havia sido roubado no ano passado e também passou por perícia.
Apesar da violência da execução, a rua Gastão Rhodes é predominantemente residencial e não é conhecida por ocorrências relacionadas ao tráfico de drogas, o que reforça a hipótese de que os criminosos aguardavam especificamente a chegada da vítima.
Equipes da Brigada Militar isolaram a área para os trabalhos do Instituto-Geral de Perícias (IGP), enquanto agentes da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) iniciaram as investigações para identificar os autores e esclarecer a motivação da execução.
Em nota, a Brigada Militar informou que a vítima utilizava tornozeleira eletrônica, possuía antecedentes criminais e já havia sobrevivido a uma tentativa de homicídio. A corporação também confirmou que, após o assassinato, os criminosos roubaram um veículo para fugir, abandonaram o automóvel pouco depois e seguiram a fuga. Segundo a BM, equipes realizaram buscas na região, mas, até o momento, ninguém foi preso. A investigação ficará a cargo da 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
Capital chega a 10 homicídios em seis dias
A sequência de execuções registrada em Porto Alegre desde a última terça-feira já deixou dez mortos em diferentes bairros e regiões da Capital, sendo vários deles com a suspeita de estarem interligados. Ainda não há informações se a morte de Jaider Torrão Ferreira Júnior está inserido na mesma onda de violência desencadeada após o duplo homicídio registrado na Vila Cruzeiro.
A série de assassinatos começou na tarde de terça-feira, quando Gabriel Becker de Farias, 30 anos, e Therick Eduardo da Cruz Melo, 25, foram mortos a tiros dentro de uma Range Rover na rua Berlim, na Vila Pedreira, no bairro Cristal, na Zona Sul da Capital.
Conforme a investigação, Gabriel teria ido ao local para cobrar dívidas de aluguel e estava acompanhado de Therick, sobrinho de um ex-líder da facção V7. Ainda no mesmo dia, a Brigada Militar prendeu um homem, duas mulheres e apreendeu um adolescente suspeitos de participação na emboscada, apontada como uma ação da facção Bala na Cara.
Dois dias depois, na noite de quinta-feira, a violência se espalhou para a Zona Norte. Na rua Seis de Novembro, no bairro Mário Quintana, três homens desceram de um Renault Captur branco e abriram fogo contra um grupo de jovens. João Vittor Veiga Silveira, de 16 anos, morreu no local. Paulo Fernando Oliveira Rodrigues, de 19 anos, chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu durante a madrugada. Um terceiro jovem, de 22 anos, sobreviveu e foi hospitalizado. Conforme informações apuradas pela investigação, os dois eram cunhados eu crime seria uma retaliação ao duplo homicídio no Cristal.
Horas depois, já na madrugada de sexta-feira, uma chacina foi registrada no bairro Passo das Pedras. Lauren Eduarda Rodrigues Borba, de 20 anos, Luiz Fernando Figueiredo de Souza e um terceiro homem, que ainda não havia sido identificado oficialmente, foram encontrados mortos com marcas de tiros em uma residência. A principal linha investigativa aponta que as vítimas eram ligadas à facção Família do Sul, aliada aos grupos V7 e Anti-Bala, e que o triplo homicídio teria ocorrido como represália ao ataque registrado horas antes no Mário Quintana.
Ainda na manhã de sexta-feira, a violência fez outra vítima. Eduarda da Graça Machado, de 33 anos, foi morta a tiros na Praça Doutor Baltazar de Bem, no bairro Vila Jardim. Ela teria ligação com a facção Bala na Cara e a execução seria uma resposta ao triplo homicídio ocorrido no Passo das Pedras.
Na noite do mesmo dia, a sequência de mortes continuou no bairro Coronel Aparício Borges. Diogo Silva das Neves, de 24 anos, foi perseguido, baleado e atingido com pedradas na região da cabeça na Travessa das Camélias. Ele também teria vínculo com a facção V7.
Embora a Polícia Civil ainda não confirme oficialmente que todos os casos façam parte da mesma dinâmica criminosa, investigadores trabalham para esclarecer a possível relação entre os assassinatos, que ocorreram em sequência e têm, em comum, vítimas apontadas como integrantes ou ligadas a facções criminosas que disputam território na Capital.
Resposta do Estado e reforço no combate às facções
O secretário da Segurança Pública do Rio Grande do Sul, Mário Ikeda, afirmou que, após a sequência de homicídios registrada entre quinta e sexta-feira, as forças de segurança passaram a atuar de forma integrada para conter uma possível escalada da violência. Segundo ele, Brigada Militar, Polícia Civil e Polícia Penal definiram uma série de medidas ainda na sexta-feira, com foco na repressão às organizações criminosas.
Ikeda destacou que, desde a adoção das ações, não haviam sido registrados novos confrontos letais entre facções no Estado até o momento da entrevista, no início da manhã de segunda-feira. “Foram traçadas várias formas de atuação. Entre elas, a saturação diária das áreas, o isolamento de lideranças de organizações criminosas, revistas em presídios e ações nas regiões de atuação desses grupos. É um trabalho forte, que já vem apresentando resultado”, afirmou.
O secretário também evitou falar sobre a transferência de lideranças criminosas, ressaltando que o Estado dispõe de diferentes mecanismos para restringir a atuação desses detentos. “Nós não falamos em transferência de lideranças. Temos várias formas de atuação dentro do próprio Estado, como o isolamento e transferências internas, e estamos fazendo isso gradativamente”, disse.
Protocolo das Sete Medidas
Por conta da série de crimes, as forças de segurança colocaram em prática o chamado Protocolo das Sete Medidas de Enfrentamento aos Homicídios. A estratégia foi criada para reduzir assassinatos por meio de uma atuação integrada contra organizações criminosas e seus líderes.
O protocolo é coordenado pelo Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e tem como base a teoria da dissuasão focada, desenvolvida pelo criminologista norte-americano David Kennedy. O princípio é concentrar os esforços do Estado sobre o pequeno grupo de criminosos responsável pela maior parte das mortes violentas. Na prática, a lógica é de que a ocorrência de homicídios com características de atuação de organizações criminosas desencadeia uma resposta imediata e coordenada das forças de segurança.
Segundo estudo desenvolvido há dois anos pelo diretor do DHPP, delegado Mário Souza, cerca de 80% dos homicídios dolosos registrados em Porto Alegre estão ligados à atuação de organizações criminosas. Por isso, o protocolo concentra as ações justamente sobre esses grupos.
Fonte: Guilherme Sperafico / Correio do Povo


