
A semana vai ajudar a medir a temperatura da economia brasileira e o rumo dos juros num ambiente que segue dominado pelo choque do petróleo provocado pelo conflito no Oriente Médio. No Brasil, a agenda concentra os indicadores de atividade, preços, emprego e contas públicas. Nos Estados Unidos, o foco fica na nova leitura do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre e no PCE, a medida de inflação preferida do Federal Reserve (Fed).
O primeiro dado relevante é o Boletim Focus, na segunda-feira, 25. Mais do que a variação pontual das projeções, o ponto de atenção é a inflação esperada para 2028 — prazo que, em tese, já deveria estar livre do efeito do petróleo. Os diretores do Banco Central vêm tratando essa expectativa de longo prazo como uma espécie de botão de “pausa”: enquanto ela não piorar, há espaço para seguir cortando a taxa Selic; se deteriorar, o ciclo de queda fica ameaçado.
Na quarta-feira, 27, o destaque é o IPCA-15 de maio, prévia da inflação oficial. O Banco Daycoval projeta alta de 0,53%, puxada por energia elétrica, passagens aéreas e alimentos. O essencial não é o número cheio, e sim a composição. A inflação de serviços — a parte mais ligada à demanda e aos salários — deve reacelerar e segue sendo o principal incômodo do Banco Central. O próprio Daycoval estima a inflação fechando o ano em 4,7%, com risco de alta por conta do petróleo e da possibilidade de um El Niño forte no segundo semestre.
A sexta-feira, 29, é o dia mais cheio no Brasil. Pela manhã, o Banco Central divulga os dados fiscais de abril. “Eles devem ser lidos à luz do relatório bimestral de receitas e despesas: segundo a Warren Investimentos, o salto do bloqueio de gastos para R$ 23,7 bilhões trouxe impacto mínimo sobre o resultado primário, e a casa ainda projeta o cumprimento da meta fiscal de 2026, com o petróleo mais caro, inclusive, ajudando a arrecadação via impostos do setor”, diz Leandro Manzoni, economista da plataforma Investing.com.
Também na sexta sai o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre. O mercado espera crescimento em torno de 1% na margem (de acordo com o Ministério da Fazenda e o Ipea). O resultado deve confirmar uma atividade ainda resiliente. “Vale o alerta de leitura: dados mais recentes, como o IBC-Br e o setor de serviços, já apontam desaceleração à frente, ainda que não no número do primeiro trimestre. O petróleo, aqui, tem efeito duplo: pressiona a inflação, mas favorece o setor extrativo e as exportações brasileiras”, comenta Manzoni. A semana traz ainda a taxa de desemprego e o Caged. Um mercado de trabalho firme sustenta renda e consumo, mas também mantém pressão sobre salários e serviços. Ou seja, não é uma notícia inequivocamente boa para quem aposta na continuidade dos cortes de juros.
MERCADO AMERICANO
Nos Estados Unidos, a reta final da semana traz a segunda leitura do PIB do primeiro trimestre, na quinta, e o PCE de abril. O pano de fundo mudou: depois de cortar juros três vezes em 2025, o Fed passou a ser comandado por Kevin Warsh, indicado por Donald Trump. A escolha gera desconfiança, porque o presidente americano defende abertamente juros mais baixos, o que levanta dúvidas sobre a independência do banco central. Na cerimônia de posse de Warsh, Trump flexibilizou o discurso e disse que daria liberdade ao novo comandante.
Na prática, o mercado caminha na direção oposta: diante da inflação resistente, já discute a possibilidade de alta de juros ainda este ano. Um PCE pressionado tende a reforçar esse tom mais duro. Em resumo, a semana ajuda a responder a duas perguntas centrais. No Brasil, se o choque do petróleo é passageiro o bastante para o Banco Central seguir cortando a Selic, ou se a inflação de serviços e as expectativas de longo prazo travam o ciclo. Nos Estados Unidos, se o Fed ainda tem espaço para flexibilizar ou se a inflação o empurra para juros parados — ou até mais altos. Para os mercados, o resultado dessa combinação influencia juros, câmbio, bolsa e o apetite por risco em economias emergentes.