
2026 mal começou e já terá uma bateria de dados relevantes em sua primeira semana cheia. As atenções estarão voltadas para Brasil e EUA entre 4 e 9 de janeiro. Uma ofensiva militar dos EUA que atingiu a Venezuela na madrugada de sábado, 3, com a captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, adiciona um novo e relevante fator de risco geopolítico, com potencial impacto direto sobre o mercado global de petróleo. A Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, com aproximadamente 303 bilhões de barris.
No cenário local, os destaques são o IPCA de dezembro (índice oficial de inflação), o IGP-DI do mês passado e a produção industrial de novembro, além da balança comercial de 2025. Nos EUA, os principais destaques são os dados do mercado de trabalho de dezembro, além dos indicadores de expectativas de inflação e da balança comercial e os desdobramentos da ação na Venezuela. Ao longo da semana, alguns diretores do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) farão aparições públicas, com investidores buscando identificar consensos em meio à divisão interna da autoridade monetária, explicitada na ata da última reunião de política monetária.
Há praticamente um consenso de que o Banco Central do Brasil iniciará a flexibilização monetária no encontro de março. Até o momento, o Boletim Focus indica que a segunda reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), dias 17 e 18 de março, deverá trazer um corte de meio ponto percentual, de 15% para 14,5%, na taxa Selic.
“A questão que tende a ganhar força daqui em diante é se essa aguardada redução da taxa básica de juros terá, de fato, essa magnitude. Os dados de inflação cheia vêm surpreendendo positivamente, mas a inflação de serviços — impulsionada por um mercado de trabalho ainda aquecido e sem sinais incipientes de desaceleração — pode condicionar o debate sobre um início mais cauteloso da flexibilização, com corte de apenas 25 pontos-base, para 14,75%, ou até um novo adiamento da decisão para a reunião de abril”, comenta Leandro Manzoni, analista da plataforma Investing.com
Além disso, segundo ele, a política fiscal segue pressionada, sem sinais claros de reequilíbrio das contas públicas ou de uma gestão crível capaz, ao menos, de conter a trajetória de elevação do endividamento público. Uma política fiscal com gastos sistematicamente superiores às receitas afeta as expectativas futuras de inflação, dificultando o trabalho do Copom para reancorar as projeções no centro da meta de 3% ao ano.
MEDIANA DAS PROJEÇÕES
Nesta segunda-feira, 5, será divulgado o tradicional Boletim Focus, com o mercado monitorando se as projeções de inflação ao consumidor para 2027 e 2028 — atualmente em 3,8% e 3,5%, respectivamente — permanecerão inalteradas, como nas últimas semanas. Ainda na segunda-feira, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) divulga a balança comercial de dezembro e o resultado fechado de 2025. A mediana das projeções aponta para um superávit comercial maior do que o registrado em novembro. A expectativa é de que as exportações tenham superado as importações em US$ 6,39 bilhões no mês passado, frente aos US$ 5,84 bilhões observados em novembro.
Na quarta-feira, 7, o Banco Central divulga o Índice de Commodities Brasil (IC-Br) de dezembro. Vale lembrar que o comportamento dos preços das commodities é apontado pelo Copom como um fator relevante de descompressão inflacionária, movimento corroborado pelos dados recentes — favorecido principalmente pela valorização de 11% do real frente ao dólar, além da queda dos preços das commodities agrícolas e energéticas no mercado internacional. Em novembro, o IC-Br composto registrou queda de 3,04% em relação ao mês anterior, enquanto o recuo trimestral foi de 3,32%. Na comparação com novembro de 2024, a baixa é de 13,22%, e o acumulado em 12 meses aponta retração de 7,37%.
Na quinta-feira, 8, o IBGE divulga os dados da produção industrial de novembro. A expectativa é de aceleração tanto na comparação mensal quanto na anual, com alta de 0,3% em ambos os casos. Vale lembrar, contudo, que o dado de outubro frustrou o mercado, ao apresentar crescimento abaixo do esperado na base mensal e retração frente ao mesmo mês de 2024. E, para encerrar a semana, a sexta-feira reserva o principal indicador brasileiro da semana: o IPCA de dezembro e o resultado fechado de 2025. A previsão é de aceleração da inflação mensal, de 0,18% para 0,41%, ainda assim em ritmo inferior ao de dezembro de 2024, quando houve alta de 0,52%. No acumulado em 12 meses, a expectativa é de desaceleração de 4,46% para 4,35%, mantendo o processo de desinflação, embora ainda distante do centro da meta.
Os últimos três dados do IPCA vieram abaixo do esperado. Ainda assim, o foco dos economistas deve permanecer na inflação de serviços e em seus núcleos, que mostraram aceleração na prévia de dezembro (IPCA-15). Pode parecer contraditório, mas trata-se de um quadro já explicitado pelo próprio Banco Central na última ata do Copom: moderação da demanda por itens sensíveis ao crédito, mas resiliência nos preços de bens e serviços ligados à renda, influenciados por um mercado de trabalho aquecido.