
Se precisasse resumir em uma frase a situação pela qual passa neste momento o PT gaúcho, os apoiadores de Edegar Pretto, pré-candidato do partido ao governo do Estado, diriam que se trata de “uma briga de foice no escuro”.
A expressão, comum no interior do Rio Grande, é usada para descrever disputas acirradas, confusas, nas quais a falta de clareza e o excesso de movimentos à traição geram um cenário de desconfiança generalizado, que impede a distinção entre inimigos e aliados.
Pela manutenção da pré-candidatura, Pretto, que definiu a próxima terça, 24, como a data em que vai se desincompatibilizar da presidência da Conab para disputar as eleições de 2026, enfrenta, desde o ano passado, um fogo amigo sem precedentes na história recente do PT no RS. O Estado onde o diretório está a um passo de sofrer uma ação inédita de intervenção nacional que o obrigue a abrir mão da candidatura própria e apoiar a postulante do PDT à corrida, a ex-deputada Juliana Brizola.
O argumento da direção nacional no movimento cada vez mais explícito para rifar Pretto, à revelia da decisão do encontro estadual do partido, que em dezembro decidiu por unanimidade por seu nome, é o de que o palanque único no RS é imprescindível para a reeleição do presidente Lula. E que, como Juliana ostenta bons números em sondagens e o PDT se mostra irredutível em seu desejo de ocupar a cabeça da chapa, a solução é entregá-la. No PT gaúcho, ninguém sabe bem como surgiu esta tese que embala os adeptos da união com o PDT.
De público, entre companheiros, há quem defenda que o Palácio Piratini não é o mais importante desta eleição, e que o partido talvez devesse concentrar forças na campanha do deputado Paulo Pimenta ao Senado, independente das consequências. Essas manifestações, garantem integrantes da direção partidária no RS, são minoritárias, e não encontram eco na base. Tanto que, nas reuniões de direção, onde estão representadas as chamadas correntes internas, todos seguem defendendo Pretto.
Mas o movimento contrário existe. Porque, quase que diariamente, há petistas alimentando, entre pares políticos ou em conversas com jornalistas, a convicção de que o apoio ao PDT é questão de dias. “É difícil combater adversários que se movem nas sombras, e teses propagadas por mensageiros, que dizem representar um emissário que, diretamente, não se posiciona”, reclama um dos articuladores gaúchos.
Nem Pretto e nem integrantes do comando estadual, por exemplo, têm certeza até agora sobre se Lula chegou a determinar que o partido deve abrir mão da candidatura no RS em nome de um acerto particular com o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi. Também não há, entre gaúchos, quem tenha conhecimento sobre se, de fato, o acerto existe, ou o que o motivou. A pouca proximidade entre os comandos em Brasília e Porto Alegre é explícita, apesar de o ex-deputado Henrique Fontana integrar a executiva nacional. Não raro, petistas gaúchos tomam conhecimento de posições externadas pelo seu presidente nacional, Edinho Silva, via pronunciamentos enviados para a imprensa ou postagens nas redes sociais.
A tese de reciprocidade entre estados não convence a maioria do diretório no Estado, que prefere olhar para os números. No país, o PDT vem perdendo musculatura nos últimos anos. Sem governadores eleitos em 2022, ocupando duas das 81 cadeiras do Senado, e com 16 parlamentares no universo de 513 que compõem a Câmara dos Deputados, a luta nacional da sigla é mais por sobrevivência à cláusula de barreira do que por influência.
Já o argumento de que, em troca do sacrifício no RS, o PDT estará com Lula em todo o país, virou motivo de piada entre adversários como o MDB e o PL na corrida estadual, por dois motivos principais, além de começar a gerar insinuações que vinculam o acordo às investigações em curso na CPMI do INSS.
Um dos motivos é que, na vida real, são escassas ou inexistentes as opções dos pedetistas na disputa nacional. “Se o PDT não apoiasse o Lula, iria apoiar quem? O Flávio? O Ratinho Júnior?”, questiona um negociador do MDB. Próximo de parte considerável dos trabalhistas gaúchos em função de um histórico de alianças e de ambas as agremiações integrarem hoje a base do governo Eduardo Leite (PSD), o MDB também pleiteia o apoio do PDT no RS. Mas, apesar dos baixos índices apresentados por seu pré-candidato no início da corrida, não abriu o flanco para que os pedetistas colocassem na mesa a possibilidade de encabeçarem a chapa.
O segundo motivo é regional. No RS, os caminhos do PT e do PDT se desencontraram durante a administração Tarso Genro (PT), que terminou em 2014, e não voltaram a se cruzar. Desde 2018, há pedetistas que não escondem sua simpatia pelo bolsonarismo. Outros se identificam com as bandeiras de centro-direita do governador e do vice, Gabriel Souza (MDB), que é adversário de Pretto e Juliana na peleia pelo Piratini. O coordenador da pré-campanha de Juliana, o ex-deputado Vieira da Cunha, tem um histórico de críticas públicas a Lula e ao PT. E a própria pré-candidata, na avaliação dos petistas, adota um comportamento ambíguo.
Em diferentes encontros partidários do chamado campo da esquerda, a neta de Leonel Brizola defende Lula com ardor. Já em eventos empresariais, ou que reúnem gestores de diferentes espectros ideológicos, se identifica como uma opção de centro, alternativa à polarização. No painel com pré-candidatos ao Piratini sediado pela Fecomércio nesta semana, ela chamou a atenção da plateia quando assinalou que governantes não devem se preocupar com ideologia e, ao invés de sua identificação com Lula, assinalou sua relação com Leite.
Fonte: Flávia Bemfica / Correio do Povo