
O retorno da alfaiataria às passarelas internacionais deixou de ser apenas um movimento estético para se consolidar como um reflexo direto do momento político e econômico vivido no mundo. Em meio a tensões geopolíticas, instabilidade financeira e transformações nas relações de trabalho, o chamado power tailoring — marcado por ombros estruturados, cortes arquitetônicos e tecidos encorpados — ressurge como símbolo de controle, presença e estabilidade.
A moda, historicamente, reage a contextos de insegurança com movimentos de estrutura. Quando o ambiente externo se mostra instável, a estética tende a buscar solidez. A roupa passa a comunicar força antes mesmo da palavra. E essa mudança de linguagem nas passarelas internacionais começa a produzir efeitos concretos no mercado brasileiro.
Na Sigbol, uma das escolas de moda mais tradicionais do país, a procura por cursos cresceu 43% em janeiro de 2026 em comparação com janeiro de 2025. O movimento se intensificou em fevereiro: nos primeiros dez dias do mês, o aumento foi de 96% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Mais do que um crescimento pontual, os números indicam uma resposta direta do mercado à valorização da técnica. Diferentemente de ciclos baseados apenas em styling ou tendências de rápida absorção, a alfaiataria estruturada exige domínio de modelagem, compreensão profunda de caimento e precisão na construção. Trata-se de uma estética que não se sustenta sem base técnica sólida.
Para Mayara Behlau, professora da Sigbol, a relação entre cenário global e comportamento profissional é evidente. “Quando a moda aponta para estrutura, o mercado entende que improviso não é suficiente. A alfaiataria exige conhecimento técnico consistente. Não é apenas sobre vestir um blazer, é sobre saber construí-lo”, afirma.
A valorização da estrutura nas passarelas internacionais coincide com um momento em que profissionais buscam diferenciação em um mercado mais competitivo e pressionado economicamente. Em períodos de incerteza, a qualificação se torna ativo estratégico. A técnica passa a representar segurança profissional, assim como a roupa estruturada simboliza segurança estética.
O aumento expressivo na procura por cursos ligados à construção e modelagem reforça que a indústria não está apenas acompanhando uma tendência visual, mas reagindo a uma mudança mais profunda de comportamento. Se a moda traduz o momento político e econômico do mundo, o mercado responde investindo na formação necessária para sustentar essa nova linguagem.