
Os principais destaques da semana econômica serão os dados de atividade econômica do Brasil, com a divulgação dos números das vendas no varejo, do volume de serviços e do IBC-Br referente a fevereiro, uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Até o momento, os dados de atividade estão surpreendendo positivamente, com os números de janeiro vindo acima da expectativa de mercado.
O IBGE já divulgou, na semana passada, a produção industrial de fevereiro, que veio com avanço mensal de 0,9% em relação a janeiro, acima da mediana de alta de 0,7% das previsões compiladas pela Reuters. Em janeiro, o IBGE informou que a produção industrial subiu mais do que o divulgado inicialmente, com avanço de 2,1% em relação a dezembro, contra 1,8% registrado anteriormente.
“Os dados surpreendentes de atividade de janeiro e fevereiro ainda não refletem, porém, os efeitos da disparada do preço do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio. Os primeiros dados de impacto nos preços saíram nesta sexta-feira, com a inflação ao consumidor de março se aproximando de uma alta mensal de quase 1%, puxada exatamente pelo preço dos combustíveis”, comenta Leandro Manzoni, analista da plataforma Investing.com.
O IPCA de março subiu 0,88%, acima do consenso de alta de 0,77% e maior do que os 0,70% de fevereiro. Além dos combustíveis, o preço dos alimentos no domicílio também pressionou o índice, devido ao aumento do custo do frete em meio à alta do diesel e à quebra de algumas safras, como a do tomate.
PRESSÃO SOBRE O COPOM
Com um quadro inflacionário mais intenso do que o inicialmente previsto — e uma inflação de serviços em patamar ainda desconfortável —, o horizonte da economia brasileira a partir do segundo trimestre é de incerteza. Ainda não se sabe até que ponto o nível mais elevado de preços pode afetar negativamente a demanda e comprometer a atividade econômica.
“O que está claro é que o processo de calibração da política monetária — que deve manter a taxa de juros em patamar restritivo, mas em nível menor do que os atuais 14,75% — promovido pelo Copom será colocado à prova. As projeções de inflação para 2026 estão sendo revisadas para cima, com risco crescente de que o índice supere em 1,5 ponto percentual o centro da meta de 3% ao ano. Leonardo Costa, do ASA Investimentos, elevou a sua projeção do IPCA de 4,6% para 5% em 2026”, diz Manzoni.
Caso o IPCA no acumulado de 12 meses fique acima de 4,5% por seis meses consecutivos, o presidente do Banco Central terá de escrever uma carta ao Ministério da Fazenda explicando os motivos pelos quais a inflação permanece continuamente acima da margem superior de tolerância. Em outras palavras, seria uma pressão adicional sobre o Banco Central e, para evitar que isso ocorra, há risco de o Copom revisar seu plano atual de corte da taxa Selic.
A princípio, os cortes de 25 pontos-base seguem garantidos, especialmente para a reunião de 28 e 29 de abril. A questão é, contudo, por quanto tempo e se pode haver pausa diante de um quadro inflacionário desafiador — especialmente com o risco real de que, no segundo semestre, os preços dos alimentos voltem a ser pressionados por condições climáticas adversas (sob o El Niño). Ainda assim, o patamar atual de juros permite que o Copom realize cortes comedidos de 25 pontos-base na taxa Selic em todas as reuniões deste ano. O caminho, porém, dependerá do comportamento:
- da atividade econômica;
- da inflação;
- da taxa de câmbio, que está ajudando com o dólar a R$ 5,00, paradoxalmente sustentado por uma taxa de juros elevada;
- e da postura dos bancos centrais globais — se optarão por um novo ciclo de alta ou pela manutenção, em patamar levemente restritivo no caso do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), para conter as pressões de preços decorrentes do atual choque de oferta de energia.
CENÁRIO EXTERNO E O BRASIL
A manutenção da taxa de juros por outros bancos centrais já seria suficiente para preservar o processo de calibração em 25 pontos-base ao longo de 2026 pelo Copom. Nesse sentido, os últimos dados de inflação dos EUA foram relativamente animadores: o impacto do conflito se concentrou nos preços dos combustíveis, elevando a inflação a uma alta mensal de 0,9%, mas com repercussão limitada nos componentes menos voláteis. O núcleo da inflação subiu 0,2%, abaixo do consenso de 0,3%.
“É preciso ter em mente, contudo, que um choque de oferta se transmite aos preços de forma direta (preço da energia e dos combustíveis) e indireta (efeito nos demais bens e serviços). O principal desafio dos bancos centrais é, por isso, o manejo das expectativas — ou seja, sustentar a percepção de que “a inflação será transitória”, restrita ao período em que ocorre o choque de oferta”, comenta o analista da Investing.com.
Nos EUA, há chance de que as expectativas não sejam contaminadas. No Brasil, o risco de desancoragem é maior, porque o choque externo de custos via combustíveis pode intensificar a inflação junto com a inflação de serviços, pressionada por um mercado de trabalho que permanece aquecido. No caso brasileiro, há ainda a questão estrutural da inércia inflacionária, com a inflação passada exercendo pressão sobre os preços futuros por meio da indexação.
O comportamento da projeção do IPCA para 2027 no Boletim Focus será, portanto, um dos termômetros essenciais: indicará se os agentes de mercado entendem o choque atual como temporário ou persistente. Caso os alimentos sigam pressionados ao longo de 2026, a inflação dificilmente convergirá para o centro da meta no horizonte relevante. Haverá cortes de 0,25 ponto percentual ao longo do ano, mas isso significa que a taxa Selic deve ficar em patamar bem acima do que era projetado para o atual ciclo de cortes, que poderia ter levado os juros a 11% ou 12% ao ano. Hoje, uma taxa abaixo de 13% ao final de 2026 parece pouco provável.
SEMANA
Na China, as atenções se voltam para o PIB do primeiro trimestre — com expectativa de crescimento de 4,7%, segundo o ING —, além das vendas do varejo de março, da produção industrial, dos preços dos imóveis e da balança comercial, cujo superávit deve vir levemente abaixo do registrado em fevereiro. Em Washington, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial realizam suas reuniões de primavera. O ministro da Fazenda do Brasil, Dario Durigan, estará no evento e deve se encontrar com seus pares, inclusive os americanos.
No campo dos bancos centrais, diversas autoridades monetárias discursarão ao longo da semana, com foco nos impactos do conflito no Oriente Médio sobre a inflação e outras variáveis macroeconômicas — sinalizando como pretendem responder às pressões de preços em curso. Nos EUA, será divulgado o Livro Bege, compilado das condições econômicas dos 12 Feds regionais, que oferece ao Federal Reserve um retrato da visão da economia real sobre a atividade, o mercado de trabalho e a dinâmica inflacionária.
Na frente geopolítica, seguem as negociações de cessar-fogo e acordo de paz entre EUA e Irã — sob a incerteza se chegarão a um consenso —, além da publicação dos relatórios mensais de energia da Opep e da Agência Internacional de Energia, com projeções de oferta e demanda para o restante do ano e avaliação dos impactos da guerra no mercado internacional de energia, especialmente petróleo e gás natural.


