
Os indicadores econômicos programados para divulgação ao longo desta semana devem moldar a narrativa macroeconômica dos mercados nas próximas semanas no Brasil e nos EUA. Serão apresentados, no período, dados que balizam a política monetária, em um momento de calibragem dos cortes de juros, no caso brasileiro, e de eventual mudança de tendência em um dos mandatos do Federal Reserve (Fed), no caso americano.
Aliás, um comunicado do Diretório Nacional do PT divulgada no sábado, em Salvador, diz que é momento de reduzir a taxa básica de juros, “que permanece em patamar restritivo e incompatível com as necessidades do desenvolvimento nacional”. A resolução foi divulgada em meio a eventos de celebração dos 46 anos do partido, na Bahia.
No Brasil, a inflação ao consumidor (IPCA) de janeiro é o principal dado macroeconômico brasileiro do período. A divulgação está programada para terça-feira, 10, às 9h, pelo IBGE. De acordo com o último Boletim Focus, o IPCA de janeiro deve subir em ritmo semelhante ao de dezembro, de 0,33% para 0,34%. A atenção da política monetária não está apenas na comparação entre o índice divulgado e a mediana das projeções. É importante que o IPCA venha em linha ou até abaixo das expectativas, mas os economistas vão avaliar o qualitativo — neste caso, o comportamento da inflação de serviços, especialmente os núcleos e os segmentos intensivos em trabalho.
De acordo com a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a desinflação da inflação de serviços, apesar de os níveis de preços do setor ainda estarem em patamares elevados, próximos ao teto da meta, é considerada satisfatória para o início do ciclo de flexibilização monetária. É imprescindível, portanto, que essa desinflação no acumulado em 12 meses continue.
“A interrupção desse movimento em serviços e seus núcleos pode fortalecer as apostas em um início de corte da taxa Selic de apenas 25 pontos-base — hoje posição minoritária no mercado. O melhor cenário para sustentar a projeção de corte de meio ponto percentual é um IPCA abaixo do esperado, com a inflação de serviços e seus núcleos mantendo a desinflação em 12 meses e recuando na base mensal — movimento considerado difícil”, justifica Leandro Manzoni, analista da plataforma Investing.com.
Mesmo com o mercado de trabalho exibindo taxa de desemprego na mínima histórica e rendimento médio recorde, o comportamento da inflação de serviços em janeiro e fevereiro tornou-se variável-chave para definir o tamanho do corte da Selic na reunião de março do Copom. O mercado fortaleceu as apostas em cortes de meio ponto percentual após dados inesperados de queda mensal na produção industrial de dezembro e números anuais abaixo do esperado, além de os índices de gerentes de compras (PMIs, em inglês), composto e industrial, estarem em território de contração.
O próprio Copom, no entanto, alertou que números de atividade acima ou abaixo do esperado são naturais em um “momento de inflexão no ciclo econômico”. O trecho foi um recado às vendas no varejo de novembro, que vieram bem acima das expectativas. O teste agora ocorre nesta semana, com a divulgação das vendas no varejo de dezembro, na sexta-feira, 13. Um dia antes, será conhecido o volume de serviços, também referente ao último mês de 2025.
“Vale acompanhar, nesta segunda-feira, 9, as projeções do Boletim Focus para a taxa Selic e o IPCA de 2026 e 2027. Embora a expectativa de inflação para 2027 — estacionada há semanas em 3,8% — seja o principal horizonte observado pelo Copom, também é relevante monitorar as projeções para o fim deste ano, que seguem em queda e já estão abaixo de 4%. Em relação à Selic, o mercado observa se os economistas consultados pelo Banco Central mantêm a projeção de 12,25% no fim do ano e de um primeiro corte de meio ponto percentual em março, de 15% para 14,5%”, comenta Manzoni.
EUA
O pequeno shutdown na virada de janeiro para fevereiro, que durou quatro dias, foi suficiente para atrasar a divulgação de dados do mercado de trabalho nos EUA. O quadro ainda está incompleto, mas os indicadores já divulgados não confirmam a estabilidade descrita pelo chair do Fed, Jerome Powell, na última entrevista coletiva após a decisão de juros no fim de janeiro.
Houve criação de empregos privados menor do que o esperado em janeiro, segundo a ADP, além de redução da oferta de vagas em dezembro, apontada pelo JOLTS, e forte anúncio de demissões no início do ano, conforme a Challenger. Falta o Relatório de Emprego Não Agrícola (payroll) para fechar o retrato do início de 2026, adiado para a próxima quarta-feira.
A expectativa é de criação de 68 mil postos de trabalho no mês passado, acima dos 50 mil gerados em dezembro. A projeção aponta manutenção da taxa de desemprego em 4,4%, enquanto os salários devem ter avançado 0,3% no mês e 3,6% em 12 meses.
Se a geração de empregos vier abaixo do esperado, com desemprego acima da projeção, crescerá a pressão para que Powell promova ao menos um corte de juros de 25 pontos-base nas duas reuniões restantes de seu mandato. Por ora, os dados mais fracos do mercado de trabalho reforçam a leitura de que a retomada da flexibilização ocorrerá apenas em junho, já sob a liderança de Kevin Warsh, caso seu nome seja aprovado pelo Senado.
Vale lembrar que o Fed opera sob duplo mandato: promoção do emprego e estabilidade de preços. Enquanto o mercado de trabalho pode demandar política monetária próxima do neutro ou levemente estimulativa, a inflação ainda aponta na direção oposta. Se um payroll fraco vier acompanhado de aceleração inflacionária acima do esperado na sexta-feira, 13, o Fed deve seguir dividido nas próximas reuniões entre os defensores de ao menos um corte de juros e os que preferem manter a taxa no intervalo de 3,5% a 3,75%, patamar considerado levemente restritivo.
o