
As políticas monetárias do Brasil e dos EUA continuam em evidência na semana econômica, porém de maneiras distintas. Após os dois bancos centrais manterem as suas respectivas taxas de juros em 15% por aqui, e no intervalo entre 3,5%-3,75% no mercado norte-americano, os investidores locais ainda vão monitorar os argumentos e sinalizações em torno da decisão da autoridade monetária brasileira. Nos EUA, o enfoque é o mercado de trabalho, um dos dois mandatos do Federal Reserve (Fed), com a divulgação de dados do mercado de trabalho de janeiro e a revisão dos números da criação de vagas de emprego no segundo semestre de 2025.
A semana promete o pontapé inicial da temporada de balanços de empresas brasileiras com ações negociadas na B3, com resultados referentes ao quarto trimestre de 2025. Enquanto nos EUA a divulgação de resultados segue a todo vapor.
Conforme o esperado, a decisão da taxa de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) veio sem surpresa em relação à taxa Selic, porém o tom do comunicado acabou surpreendendo. Havia a expectativa de um conteúdo com sinalizações sutis para o início da flexibilização monetária na próxima reunião em março, mas foi inesperada a vinda de uma orientação futura (forward guidance) praticamente sacramentando o corte da taxa Selic em 18 de março, condicionada à evolução dos indicadores econômicos, como a continuação da moderação da atividade e a desinflação.
Os dados condicionais devem se concretizar até 18 de março, apesar da inflação de serviços pressionada, especialmente dos segmentos intensivos em mão-de-obra. O mercado de trabalho, com taxa de desemprego na mínima histórica e massa salarial no pico, contribui para essa pressão na inflação de serviços, mas deve contribuir com uma leve alta na taxa de desemprego, algo sazonal para esta época do ano, além de não ter uma baixíssima margem para melhorar.
“A discussão agora é sobre a magnitude do começo da flexibilização monetária e o fim do novo ciclo de baixa. Entre os economistas, o debate está em torno entre 25 e 50 pontos-base, enquanto na curva de juros há apostas para 75 pontos-base”, comenta Leandro Manzoni, da plataforma Investing.com
Diante de projeções conservadoras do IPCA no horizonte relevante para o terceiro trimestre (de 3,2%) e a taxa de câmbio em R$ 5,35/dólar, combinadas com uma sinalização de “serenidade” na flexibilização apontada no próprio comunicado, a possibilidade atual é de um corte de 25 pontos-base em março e na reunião de abril.
“Porém, a valorização do real, que chegou a operar abaixo de R$ 5,20 por dólar na última semana, abre margem de melhora nas expectativas de inflação no Boletim Focus e nas projeções do IPCA no próprio cenário de referência do Copom, o que deixa uma probabilidade relevante de corte de meio ponto percentual”, comenta Manzoni.
Queda de 0,75 ponto percentual, segundo ele, é altamente improvável. Além do cenário descrito para um corte de 50 pontos-base, a inflação de serviços teria que ter uma melhora substancial e o mercado de trabalho mais relaxado, o que não deve acontecer. De qualquer forma, os investidores vão monitorar o conteúdo da ata da reunião da última quarta-feira, 28. A ata do Copom é uma extensão, com mais detalhes, dos argumentos apresentados pelo comunicado pós-decisão. O documento será divulgado na terça-feira (3), às 8h.
Antes, na segunda-feira, 2, haverá a divulgação do tradicional Boletim Focus. O mercado vai monitorar se haverá redução na projeção da inflação para 2027, além das estimativas do dólar e da taxa Selic para o fim deste ano. Na terça-feira, 3, o IBGE também divulgará a produção industrial de dezembro, começando a finalizar o quadro da atividade econômica no quarto trimestre do ano passado.
Na quarta-feira, 4, o Banco Central divulga o Índice de Commodities de janeiro, que é um dos fatores no balanço de risco de baixa para a inflação. Em dezembro, houve uma alta acima de 4% nos preços das commodities em reais, enquanto no trimestre encerrado no último mês do ano teve uma leve alta de 0,89%, com uma queda acentuada de quase 10% nos últimos 12 meses. Na quinta-feira, 5, será conhecida a balança comercial de janeiro. Já na sexta-feira, 6. será a vez do IGP-DI.
EUA
O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) manteve a taxa de juros inalterada na última quarta-feira, no intervalo entre 3,5%-3,75%. Apesar de dois votos dissidentes optando por um novo corte de 25 pontos-base, pesou a inflação acima da meta de 2% ao ano, próximo a 3%, com o mercado de trabalho estabilizado. A taxa de juros deve se manter neste patamar nas próximas duas reuniões do Fed, ainda sob o comando de Jerome Powell. O encontro de junho deve ser liderado por Kevin Warsh, nome indicado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para se tornar o novo chair do Fed.
Warsh ainda vai ser sabatinado pelo Senado. Seu nome em si não deve enfrentar resistência, mas sofrer indiretamente com as ameaças de Trump contra Powell, que está sendo investigado pelo Departamento de Justiça acusado de superfaturamento na reforma da sede do Fed. Senadores democratas e alguns republicanos ameaçam obstruir a sabatina enquanto não houver a retirada do processo contra Powell.
De qualquer forma, a perspectiva é de que Warsh seja aprovado pelos parlamentares e reduzir a taxa de juros em junho, conforme quase 50% dos derivativos de juros na bolsa CME indicam na plataforma FedWatch. O eventual novo presidente do Fed é visto como hawkish pelo mercado, ou seja, dá um peso maior à inflação do que ao mercado de trabalho na hora da decisão de juros, com propensão a adotar uma política de taxas mais altas.
No entanto, Warsh é favorável a uma taxa de juros mais baixa neste momento. Ele está incomodado com o tamanho do balanço patrimonial do Fed, que, na visão dele, estaria atrapalhando a adoção de taxas de juros mais baixas.
Antes de saber a linha que Warsh adotará no Fed a partir de junho, a semana entre 1° e 6 de fevereiro apresentará a saúde do mercado de trabalho nos EUA. Não são somente os dados de janeiro que serão apresentados: haverá a divulgação dos números de geração de vagas de emprego no segundo semestre de 2025.
Essas revisões geralmente apresentam um ajuste para baixo, um indicativo de que os dados apresentados ao longo do semestre estão superestimados. Com uma atividade econômica forte e os números prévios da ADP apresentando leve criação de empregos, é possível que a radiografia do mercado de trabalho americano permaneça em estabilidade.