
O mercado vai monitorar, na análise dos comunicados, mais as sinalizações que vão guiar Copom e Fed nas próximas reuniões do que a decisão em si. Cada banco central enfrenta desafios próprios e tende a adotar cautela ao indicar quando começa o corte da taxa de juros (Copom) ou quando será retomada a flexibilização monetária (Fed).
O cenário desde a última reunião do Copom, em 16 de dezembro, não foi animador para que o início do corte da taxa Selic ocorra já no primeiro encontro de 2026. Na prática, os números de atividade e do mercado de trabalho divulgados até novembro mostraram crescimento econômico acima do esperado e taxa de desemprego na mínima histórica, com a massa salarial agregada no maior patamar da série iniciada em 1989. Na entrevista coletiva sobre o Relatório de Política Monetária, em dezembro de 2025, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse que não havia “seta dada” ou “porta fechada” para as decisões que o Copom tomaria a respeito da Selic nas próximas reuniões.
“A surpresa com o dinamismo econômico no Brasil, em meio a uma taxa de juros altamente restritiva, pode desafiar a tese de desaceleração gradual da atividade econômica preconizada pela autoridade monetária nas últimas reuniões. O fator que ainda sustenta parcialmente essa tese é a perda de fôlego de setores sensíveis ao crédito, como o varejo ampliado”, comenta Leandro Manzoni, da plataforma Investing.com.
A diferenciação de ritmo entre as atividades sensíveis ao crédito e aquelas impulsionadas pela renda já foi abordada pelo Copom na última ata. Em razão de um mercado de trabalho apertado, a inflação de serviços — especialmente nos segmentos intensivos em trabalho — interrompeu o processo de desinflação e voltou a acelerar no acumulado em 12 meses. Esse movimento, somado a uma política fiscal expansionista em descompasso com a política monetária, dificulta a queda da projeção do IPCA em 2027, horizonte relevante para a decisão de juros.
“Além disso, já há incerteza no mercado quanto ao início dos cortes na reunião de março. No mercado de opções de Copom da B3, nos dados mais recentes, havia 36,50% de probabilidade de corte de 25 pontos-base da Selic em março, 32,25% de chance de corte de 50 pontos-base e 25,10% de probabilidade de manutenção. A mediana dos economistas ouvidos pelo Boletim Focus indica início dos cortes na reunião, de 50 pontos-base, para 14,5%”, comenta o analista da Investing.com.
INFLAÇÃO
Com a estimativa de inflação ao consumidor estacionada em 3,8% para 2027, o Boletim Focus desta segunda-feira, 26, deve manter essa projeção, assim como a taxa Selic em 12,25% ao fim deste ano – patamar ainda restritivo. No mesmo dia, o Banco Central divulga os dados do setor externo de dezembro e do resultado fechado de 2025.
No mesmo dia serão publicadas as estatísticas do setor externo, com dados sobre o balanço de pagamentos e o Investimento Direto no País (IDP). No dia seguinte, terça-feira, 27, será divulgada a prévia da inflação ao consumidor de janeiro (IPCA-15) pelo IBGE. Na avaliação do Banco Daycoval, o indicador não deve trazer alívio para o Banco Central, mesmo dia em que começa a reunião do Copom. O IPCA-15 do período deve avançar 0,31%, com destaque para a pressão nos serviços e para os preços de alimentos em terreno positivo.
“O grupo de serviços deve registrar alta em função do aumento dos preços das passagens aéreas, da alimentação fora do domicílio e dos itens intensivos em trabalho”, afirmam os economistas do Banco Daycoval.
Na quinta-feira, 29, o Banco Central publicará as estatísticas de crédito, com informações sobre taxas médias de juros cobradas no sistema financeiro, inadimplência e concessões. Também saem novos dados do mercado de trabalho no Brasil. O IBGE apresenta a taxa de desemprego do trimestre encerrado em dezembro, além da massa salarial e do rendimento médio. Ainda sem confirmação oficial, o Caged deve divulgar à tarde do mesmo dia os números de geração de postos de trabalho com carteira assinada.
Também na sexta-feira, pela manhã, o Banco Central apresenta os dados fiscais consolidados do setor público, que agregam receitas e despesas da União, estados, municípios e estatais. É provável que o Tesouro Nacional também divulgue o Relatório do Governo Central na semana, que deve registrar superávit primário de R$ 12,6 bilhões, segundo cálculos do Ipea.