
A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) manifesta preocupação com a confirmação da aplicação de tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos. Para a entidade, a medida não encontra justificativa na relação comercial entre os dois países e tampouco contribui para ampliar a competitividade da indústria norte-americana.
No caso específico do setor químico, os dados evidenciam justamente o contrário. Em 2025, os Estados Unidos exportaram aproximadamente US$ 11,5 bilhões em produtos químicos para o Brasil, enquanto importaram cerca de US$ 2,1 bilhões em produtos químicos brasileiros, mantendo um superávit comercial superior a US$ 9 bilhões. “Se há algum desequilíbrio nessa relação, ele é favorável aos Estados Unidos, e não ao Brasil”, afirma o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro.
Além disso, a indústria química norte-americana já desfruta de importantes vantagens competitivas, especialmente no segmento petroquímico, decorrentes do acesso a matérias-primas estratégicas, como o etano e o gás natural, a custos significativamente inferiores aos praticados no Brasil. Essa condição garante aos produtores norte-americanos elevada competitividade internacional e explica, em grande medida, o maior volume de exportações dos Estados Unidos para o mercado brasileiro.
Na avaliação da Abiquim, a decisão também desconsidera a complementaridade existente em diversas cadeias produtivas. Parte dos produtos químicos brasileiros sujeitos às novas tarifas atende segmentos em que não há produção suficiente – ou sequer existe fabricação – nos Estados Unidos. Nesses casos, a medida tende a elevar custos para a própria indústria norte-americana, que dependerá da importação desses insumos de outros mercados ou do pagamento de preços mais elevados.
CONCORRÊNCIA DESLEAL
Outro aspecto relevante é que o setor químico brasileiro já enfrenta, há anos, práticas de concorrência desleal em determinados segmentos, situação que levou o governo brasileiro a adotar medidas de defesa comercial, como investigações antidumping e elevação tarifária sobre alguns produtos. Essas ações foram fundamentadas em análises técnicas e demonstram que, no caso da química, o desafio competitivo não decorre das exportações brasileiras aos Estados Unidos, mas, em diversos segmentos, da pressão exercida por importações realizadas em condições desleais.
Para a Abiquim, os fundamentos da decisão extrapolam a esfera econômica e comercial. A medida se insere em um contexto mais amplo de tensões geopolíticas e de reorganização das cadeias globais de comércio, sem relação direta com eventuais distorções na balança comercial entre Brasil e Estados Unidos.
Embora apenas 42% dos códigos tarifários (SH6) do universo químico exportado aos Estados Unidos tenham sido contemplados com isenção da tarifa adicional de 25%, esses códigos concentram parcela significativa do valor exportado. Dos 1.177 códigos SH6, 493 ficaram isentos da sobretaxa, enquanto 684 códigos (58%) permanecem sujeitos à nova tarifa.
Isso significa que, embora a maior parte do valor exportado esteja concentrada em poucos produtos beneficiados pelas isenções, a sobretaxa continua incidindo sobre a maioria dos itens da pauta exportadora do setor químico. Em termos de valor exportado, as isenções abrangem entre 64% e 71% das vendas brasileiras ao mercado norte-americano, concentradas em poucos produtos de grandes volumes exportados, como alumina calcinada, silício, hidróxido de alumínio e óxido de nióbio. Ainda assim, a maior parte da pauta exportadora, em número de produtos, permanece tarifada, desencadeando impactos relevantes sobre diversos segmentos da indústria química.
Com base nas operações comerciais realizadas em 2024, 2025 e no primeiro semestre de 2026, a Abiquim estima que, mantido o mesmo fluxo de exportações, a nova tarifa represente um custo adicional potencial de aproximadamente US$ 66 milhões até o final de 2026 – o equivalente a aproximadamente US$ 133 milhões em termos anualizados.


