
Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, além das represálias recentes, intensificam-se no Oriente Médio, e alguns reflexos chegam ao Rio Grande do Sul. Com as incertezas na região derivadas pelo crescimento do conflito, além das consequências sobre o tráfego de cargas internacionais pelo fechamento do Estreito de Ormuz, relevante para o transporte marítimo internacional, os custos de transportes aumentam e diversos setores são atingidos.
Os principais reflexos, assim como no para todos os países, envolve o cenário do petróleo. Seu preço futuro, que já estava acima de 70 dólares o barril em função da ameaça do conflito, subiu cerca de 8% apenas nesta manhã. O câmbio, no entanto, teve alta de cerca de 1%. Porém, produtos agropecuários, responsável por cerca de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual, também são afetados.
A extensão do conflito determinará, em grande medida, quais serão os maiores impactos na economia, afirmam especialistas. “Nesse momento, o Irã está demonstrando uma certa indisposição a negociar, a cessar o fogo. A grande variável para se determinar o tamanho dos impactos sobre a economia brasileira é a durabilidade, a extensão desse conflito”, diz Gustavo Inácio de Moraes, professor da Escola de Negócios da PUCRS.
“Se for um conflito muito rápido, os efeitos obviamente vão ser pequenos. Se for um conflito com uma intensidade e um tempo maior, quanto mais ele se perpetua, mais esses efeitos vão ser sentidos”, complementa Rodrigo Velho, vice-presidente de comércio exterior da Federasul. O setor mais afetado, tanto na importação quanto na exportação, é o agronegócio, e a disrupção logística é um fator de risco. O que é percebido de maneira imediata é o aumento de custos.
Para Giovana Menegotto, economista da Fecomércio-RS, a intensificação e duração do conflito também é a grande questão da transmissão do impacto do preço do petróleo sobre os preços internos de combustíveis. Além disso, a decisão da Petrobrás sobre repasse dos preços. “Em um contexto de escalada do conflito e prolongamento de sua duração, pode haver alta significativa no preço do petróleo e, em caso de aumento acentuado da incerteza, reflexos maiores sobre o câmbio, o que potencializa o aumento dos preços do petróleo em reais”, explica.
Com os reflexos do petróleo hoje, a gasolina registra defasagem de -17% (-3% antes do conflito), enquanto o Diesel A S10 tem defasagem maior, -23% em relação ao preço de paridade internacional (-12% antes do conflito).
Oriente Médio é o quarto destino dos produtos gaúchos
Com altos impactos na lógica do comércio e investimentos, a preocupação maior com os impactos envolvem, na verdade, a região do Oriente Médio como um todo, aponta Luciano D’Andrea, gerente de Relações Internacionais e Comércio Exterior do Sistema Fiergs. O Rio Grande do Sul importa apenas 0,03% ao Irã, sendo um valor quase irrisório. “Pouco afetaria nossas importações”, resume. Nas exportações, os principais itens são soja e milho para ração animal, e o Irã é o terceiro destino, com 12,65%, somando 164 milhões de dólares exportados.
Já para o Oriente Médio, os valores são mais expressivos, sendo o quarto destino do Estado e a quinta origem das importações gaúchas. O mercado árabe é importante para carnes de frango e bovina. Os itens mais importantes são os fertilizantes, que abastecem boa parte do agro gaúcho, representando 40% do PIB, e que podem vir a encarecer. Em 2026, o Rio Grande Sul exportou ao Oriente Médio 1,3 bilhões de dólares, e importou 744 milhões de dólares da região árabe. No caso das exportações, os principais produtos são tabaco, milho, soja, celulose, carnes, comprados por países como Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes.
“O que mais nos preocupa é ampliar esse conflito, que pode gerar uma recessão global. Uma redução de demanda drástica que persistisse e se novos países forem entrar nessa nessa guerra. Isso vai gerar uma incerteza global muito grande”, diz D’andrea.
A economista da Fecomércio-RS lembra que 26,8% da importação de fertilizantes vem do Oriente Médio, sendo 18,7% da Arábia Saudita. O fechamento do tráfego de cargas causa reflexo nos custos dos insumos de um fornecedor que é relevante para a agricultura gaúcha. Ainda, o impacto sobre a dinâmica dos preços dos fretes. “Com o aumento do preço dos fretes dos navios-tanque no percurso entre o Oriente Médio e a China, há um risco real de efeito cascata no custo do transporte por grandes cargueiros em todo o mundo. Além disso, há impactos sobre os preços de seguros, o que também reflete no custo de transporte”, diz.
“Pode haver uma ruptura de fornecimento e, quando isso acontece, a gente sabe que os preços aumentam e tem um impacto de custo em questões inflacionárias daqui para frente”, explica Rodrigo, da Federasul. Outros produtos agropecuários também são afetados, como milho, soja e carnes, que são os principais mercados que costumam abastecer a região dos países do Golfo Pérsico e Golfo de Omã. “Esses produtos podem ter impactos numa disrupção de chegada desses produtos aos seus destinos”, diz. Produtos que vão ao Oriente Médio, como o próprio Irã, além da Arábia Saudita e Emirados Árabes, terão dificuldade de acessar o mercado em função da logística indisponível, em razão do conflito, pelos portos que recebem navios com produtos agropecuários.
Reflexo nos indicadores econômicos
O economista da PUCRS elenca pelo menos três impactos possíveis de mensurar e citar como tendência. O primeiro, a piora na perspectiva da economia mundial, considerando que as principais companhias aéreas do Oriente Médio cancelaram seus voos e interrompendo o fluxo de transporte da economia global, em países com destaque logístico. “Estamos falando aqui, quem sabe, de pelo menos meio por cento do PIB, se esse conflito durar pelo menos mais 10 dias nessas condições”, diz.
O segundo efeito envolve os mercados do Oriente Médio com transporte via marítimo ou área comprometidos, comprometendo a exportação da proteína animal. O terceiro, uma desvalorização da moeda brasileira. “Pressiona o câmbio brasileiro no sentido de que o investimento externo em mercados financeiros brasileiros tende a ser repatriado”, disse. Os investidores preferem não ficar exposto nos emergentes e cobrirem seus prejuízos nos mercados desenvolvidos.
Os títulos do IPCA, que tinham boa perspectiva para esse ano, segundo o economista, com recuo de inflação, já se colocam em dúvida. “Um conflito mais duradouro faria com que a inflação IPCA fosse revisto para cima, desvalorizando, então, esses títulos IPCA+ que tinha uma boa perspectiva para 2026”, diz.
Empresas devem se preparar para o cenário de incertezas
Entre os caminhos para manter o mercado em meio a um cenário de incertezas, as empresas devem buscar mercados alternativos e manter diálogo com os parceiros da região. “Entender quais são as alternativas que poderiam ser colocadas em prática, que acredito que não sejam muitas, porque nós estamos falando de questões geográficas, de passagem de navios e de portos. Mas estabelecer o canal de comunicação com seus parceiros no exterior é primordial”, diz Rodrigo, da Federasul.
“Grandes empresas de navegação já anunciaram medidas preventivas em relação a isso, tanto com a não navegação naquela região, para proteger os seus, quanto não aceitando mais o embarque de cargas para esses mercados”, complementa.
Para a economista da Fecomércio-RS, precisam se preparar as empresas que não têm ambas as operações no comércio internacional, de importação e de exportação em volumes financeiros semelhantes, de forma que a oscilação do câmbio afeta as duas operações de forma complementar, o que acaba equilibrando despesas e receitas (Hegde Natural). “Para as importadoras, cuja desvalorização do dólar encarece suas compras, é fundamental avaliar possibilidades, custo e necessidade real de operações que assegurem o câmbio em valores suportáveis, reduzindo a exposição do negócio em caso de pressão maior sobre o câmbio”, diz.
Fonte: Correio do Povo