
A estiagem se instala em parte do Rio Grande do Sul com precipitação abaixo a muito abaixo da média com tendência de agravamento do quadro de escassez hídrica no curto prazo e perda de umidade no solo. A avaliação é da meteorologista Estael Sias, da MetSul Meteorologia. Segundo ela, a maior irregularidade da chuva neste verão já era antecipada.
“Desde a metade do ano passado a MetSul alertava que por conta do resfriamento do Pacífico se esperava uma estação com precipitação inferior à climatologia em parte do estado, especialmente na Metade Sul gaúcha”, frisou. Uma evidência do crescente déficit hídrico é o racionamento de água, que começou nesta terça-feira, em Bagé, na Campanha, um problema crônico na cidade em verões em que a chuva não é abundante.
Em janeiro, Bagé registrou apenas 47,1 mm chuva, volume muito abaixo do normal e que agravou a escassez hídrica no município. A falta de precipitação provocou a queda nos níveis das barragens que abastecem a cidade e levou a população a se preparar para o sétimo racionamento de água em dez anos.
Segundo o Departamento de Água, Arroios e Esgoto de Bagé (Daeb), responsável pelo abastecimento de água e o saneamento na cidade, a situação dos reservatórios segue preocupante, com a barragem Emergencial cheia, a Piraí operando 1,2 metro abaixo do nível e a Sanga Rasa, principal manancial do município, 4,5 metros abaixo da cota normal.
Diante desse cenário, a prefeitura publicou um decreto que autoriza o racionamento preventivo a partir desta terça-feira, com o objetivo de preservar a água disponível e evitar impactos mais severos no futuro. O abastecimento será feito em sistema de revezamento, dividido em dois setores, com fornecimento por 36 horas e interrupção por 12 horas, sempre das 15h às 3h, seguindo o mesmo modelo adotado em 2025. A prefeitura e o Daeb reforçam o pedido de uso consciente da água, priorizando atividades essenciais e evitando desperdícios.
Produtores rurais ouvidos pela MetSul Meteorologia destacam que a deficiência de chuva se agravou depois de 10 de janeiro e que os efeitos da estiagem são mais sentidos em áreas mais ao Sul gaúcho, no Extremo Sul do Estado e na Campanha. Em locais da Metade Sul no entorno da Lagoa dos Patos, o cenário é mais favorável. A chuva irregular traz preocupação ainda em municípios do Centro para o Oeste do Estado.
ESTIAGEM SE AGRAVA NO CURTO PRAZO
São esperadas temperaturas nesta semana ao redor e acima de 35ºC na maior parte dos municípios gaúchos e alguns terão máximas perto, em torno e mesmo acima dos 40ºC em dias escaldantes. Sob condições de falta de chuva e calor intenso, a evapotranspiração no solo se intensifica e acelera a perda de umidade disponível, elevando de forma significativa o risco de estiagem, mesmo que breve.
“As altas temperaturas e a forte radiação solar aumentam a evaporação direta da água do solo, enquanto a baixa umidade do ar e o vento favorecem a rápida transferência desse vapor para a atmosfera”, disse. Com a reposição hídrica praticamente inexistente, o solo seca progressivamente, reduzindo a água acessível às plantas e comprometendo o desenvolvimento da vegetação. “Nesse cenário, a evapotranspiração passa a atuar como um fator agravante do déficit hídrico, especialmente em solos rasos ou mal estruturados, que têm menor capacidade de retenção de água”, destacou.
Conforme Estael, a vegetação, ao enfrentar estresse hídrico, tende a reduzir a transpiração como mecanismo de defesa, mas isso nem sempre é suficiente para evitar perdas produtivas. Não bastasse o calor, a chuva não deve ser favorável nesta semana. “A frente fria chega no final da semana, mas não deve trazer volumes altos de chuva para a a maioria das cidades”, frisou.
Assim, o cenário de chuva para a semana na agricultura gaúcha não é bom. Vai chover no Estado no final da semana, mas as precipitações tendem a ser demasiadamente irregulares e muito mal distribuídas. No geral, os volumes devem ser baixos e em alguns pontos pode sequer chover na semana. Somente setores muito localizados podem ter chuva mais volumosa por conta de temporais isolados.
INFLUÊNCIA DO PACÍFICO
A La Niña chegou ao fim, mas as condições atuais de estiagem em parte do Rio Grande do Sul refletem o resfriamento do Oceano Pacífico Equatorial nos últimos meses, o que agravou a irregularidade da chuva no estado. Hoje, conforme o último boletim semanal da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Central-Leste (região Niño 3.4) está em -0,4ºC. O valor está na faixa de neutralidade (-0,5ºC a +0,5ºC).
“Uma vez que as anomalias seguem negativas, mesmo sem La Niña, e os efeitos inerciais na atmosfera do fenômeno permanecem, é natural que a chuva siga irregular e abaixo da média em várias regiões gaúchas”, assinalou. Segundo ela, um aquecimento mais acentuado do Pacífico nos litorais do Peru e do Equador nas próximas semanas, no entanto, pode repercutir com aumento da chuva no Rio Grande do Sul mais tarde neste verão.
Fonte: Correio do Povo