
O comportamento de consumo do brasileiro não é apenas desigual, ele está em movimento. E, nesse cenário, estabilidade financeira virou exceção. Dados inéditos do 1º Anuário Mosaic Insights, da Serasa Experian, primeira e maior datatech do Brasil, mostram que apenas 22% da população adulta brasileira estão em perfis de maior estabilidade financeira, e esse grupo concentra a maior parte da receita do e-commerce nacional, sendo responsável por 46% do valor movimentado.

Enquanto isso, mais da metade (52%) dos brasileiros vivem em perfis considerados “em transição”: consumidores que trabalham, consomem e buscam evolução financeira, mas mantêm alta sensibilidade a preço, prazo, taxa e previsibilidade. Outros 25,5% estão em grupos de maior restrição. O estudo propõe uma nova lente para entender o país: além de renda e idade, analisa estabilidade financeira e momento de vida, organizando a população em clusters comportamentais que revelam como o consumo está se reorganizando, algo inédito no país.
“O Mosaic Insights nos mostra que o Brasil não é um só. Ele opera em diferentes níveis de previsibilidade financeira e com comportamentos diferentes em relação ao que comprar, e isso muda completamente a lógica de decisão de consumo”, afirma Giovana Giroto, CMO e Vice-Presidente de Marketing Solutions da Serasa Experian.
Nos últimos dois anos, o Brasil mudou mais do que parece, com um crescimento relevante de perfis associados à previsibilidade e organização financeira, como:
- Base produtiva tradicional do país (+77%)
- Famílias estáveis e bancarizadas (+68%)
- Alta renda e executivos consolidados (+33%)
Ao mesmo tempo, perderam participação grupos ligados a maior dinamismo e renda em consolidação, como jovens profissionais digitais (-33%) e empreendedores urbanos em crescimento (-34%). Para a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, o movimento reflete fatores estruturais: interiorização do desenvolvimento, envelhecimento populacional e pressão do custo de vida. “O que vemos não é apenas mudança de renda, mas mudança de comportamento. O consumidor passou a priorizar previsibilidade, organização e menor exposição ao risco”, afirma.
INVESTIMENTO
O levantamento também mostra que a capacidade de pensar no longo prazo é concentrada. Apenas cerca de 15% da população apresenta alta propensão a produtos de investimento, e em grupos de maior estabilidade, essa afinidade pode se aproximar de 90%. Nos segmentos de menor renda cai para patamares próximos de 4%.
Já a previdência privada tem alta propensão em menos de 10% da população, enquanto o seguro saúde alcança cerca de 25%, sendo tratado mais como proteção básica do que como planejamento de longo prazo. O dado reforça que investir pressupõe não apenas renda, mas previsibilidade e sensação de controle sobre o futuro.
O Brasil envelhece rapidamente, a população 65+ cresceu 57% segundo o Censo 2022 e o consumo acompanha essa transformação. Em termos agregados, consumidores 60+ apresentam gastos acima da média nacional em categorias ligadas à rotina e qualidade de vida, como mercado, farmácia, casa, eletrônicos e lazer. Dentro desse grupo, há forte heterogeneidade. Um exemplo é o fato dos 60+ do Grupo A, Elite Econômica, consumir mais do que 72% da população geral, estando entre os 28% brasileiros que mais consomem no país.
“A maturidade muda o critério de decisão, não elimina o consumo. Confiança, clareza e utilidade passam a pesar mais do que impulso; e é estratégico para marcas conseguirem diferenciar essa população para abordá-la de forma mais eficiente e personalizada, de acordo com seu momento de vida e perfil”, afirma Giovana Giroto.
A população com renda acima de 10 salários mínimos representa 3,5% dos brasileiros, e menos de 1% ultrapassa 20 salários mínimos. Apesar do volume reduzido, trata-se de um grupo heterogêneo: 1 em cada 4 tem até 39 anos, refletindo também pessoas que entraram nesse grupo a partir de trajetórias profissionais aceleradas e empreendedorismo.
Nos ambientes digitais, 34% mantêm presença baixa ou praticamente inexistente. No entanto, é importante salientar que essas não são pessoas que não estão no ambiente digital; mas sim quem dificilmente convertem nesses meios, preferindo outras experiências de compra. “O que muda tudo para estratégias de marketing que precisam atingir super-ricos, então, é como trabalhar ativações online de topo e meio de funil, mas também mensurar a jornada toda de atribuição, já que a compra muitas vezes não será finalizada no digital”, comenta Giroto.
O Anuário Mosaic Insights mostra que o futuro do consumo no Brasil não passa por “convencer a comprar mais”, mas por compreender contexto. Num país onde estabilidade é minoritária e metade da população vive em movimento, comunicação genérica perde eficiência. “Mais do que segmentar por renda, é preciso entender o estágio de vida e o nível de previsibilidade financeira. É isso que define critério de escolha, tolerância a risco e jornada de decisão que vão fazer a diferença para os negócios”, conclui Giovana.