
O Complexo Cultural do Porto Seco estava aberto na manhã desta quinta-feira na zona Norte da Capital, um dia depois de a Polícia Civil deflagrar a Operação Luminus, que investiga ligações clandestinas feitas na rede de energia elétrica. Ao menos duas escolas de samba do Carnaval de Porto Alegre, a Imperatriz Dona Leopoldina e a Imperadores do Samba, esta última campeã de 2025, alugaram geradores para continuar a montagem de suas alegorias e demais equipamentos para a folia, confirmada para os dias 27 e 28 de fevereiro.
Os demais pavilhões também estavam abertos, com alguma movimentação, mas grande parte dos cabos, cortados durante a operação por equipes da CEEE Equatorial, ainda estavam pendurados ou no chão. Conforme os policiais, os 15 pavilhões no Sambódromo possuíam cabeamento ligado diretamente aos postes de iluminação pública próximos, sem inclusive medidores de energia elétrica, implicando na prática do delito de furto.
O prejuízo é estimado em cerca de R$ 15 mil ao mês por pavilhão à concessionária CEEE Equatorial, ou R$ 225 mil mensais no total. “Essa situação de precariedade no Porto Seco é conhecida por todos, não apenas pelos carnavalescos, mas pelo poder público também. Acredito que esta questão (da energia elétrica) poderia ter sido resolvida com uma reunião, ou tratado antes da operação. Quando a gente fala de cultura, principalmente cultura popular, parece que a batida é muito mais forte”, disse o diretor de Carnaval da Imperatriz Dona Leopoldina, Júnior Gonçalves.
“Todo mundo sabia que existia, inclusive a CEEE Equatorial, porém a forma como foi tratada a ação é que gerou um pouco de desconforto”, acrescentou. Conforme a polícia, de fato, a concessionária afirmou que a prática ocorria “há um tempo considerável, tendo havido sucessivas notificações emitidas a todos os responsáveis”. As escolas de samba instaladas no Porto Seco também teriam sido convidadas a prestar esclarecimentos, porém não houve nenhum comparecimento, somente depoimentos coletados de funcionários e colaboradores dos pavilhões na condição de testemunhas.
No caso da Imperatriz, cujo gerador está na parte externa do pavilhão, Gonçalves disse que o equipamento deverá custar R$ 5 mil por três dias, entre aluguel e combustível, recurso que, segundo ele, já é escasso e iria para o Carnaval. “Não sei se não precisaremos utilizar por mais dias”, comentou ele, mas reforçando que, por ora, o desfile da escola bicampeã dos festejos carnavalescos em 2010 e 2016, e que neste ano homenageará o jornalista Evandro Hazzy, não está comprometido para 2026.
Contrapontos
Em nota, a Prefeitura disse que, em reunião na tarde de quarta-feira, a Administração e a CEEE Equatorial definiram que a energia será restabelecida “nos próximos dias, a partir de adequações técnicas realizadas em trabalho conjunto entre as partes”. De maneira emergencial, a Prefeitura disse também que irá iniciar a execução de infraestrutura para ligação de baixa tensão. Informou ainda que a proposta definitiva para qualificação e individualização do fornecimento de energia, conforme as demandas do complexo, estava tramitando desde o início de 2025, sendo recentemente aprovada.
Já a União das Entidades Carnavalescas do Grupo de Acesso de Porto Alegre (UECGAPA), que representa 19 escolas de samba da Capital, e a União das Escolas de Samba de Porto Alegre e Região Metropolitana (Uespa), composta por oito escolas de Porto Alegre e municípios do entorno, emitiram uma dura nota conjunta, em que criticam o “escrachamento público orquestrado por quem não respeita e não valoriza a cultura do carnaval e nossas comunidades”, diz o texto.
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A nota da UECGAPA e Uespa acusa a própria CEEE Equatorial de realizar a ligação irregular, dizendo que a mesma faz parte do Comitê Gestor do carnaval de Porto Alegre. Dez dias antes da operação, a empresa teria estado no Sambódromo, segundo as entidades, fazendo uma vistoria “junto a todos os órgãos da prefeitura, o que é de praxe neste período do ano”. A nota pede ainda a “legalidade (do) abastecimento de energia, mas sem o sensacionalismo que, as vésperas do desfile, costumeiramente vimos por aqui”. Procurada, a CEEE Equatorial afirmou que não emitirá opinião própria, dizendo se apoiar nas informações divulgadas pela Prefeitura de Porto Alegre.
Fonte: Felipe Faleiro/CP