
Centenas de amigos e familiares acompanharam na manhã desta sexta-feira o sepultamento do corpo do produtor rural e feirante Marcos Daniel Nörnberg, 48 anos. As cerimônias de despedida ocorreram no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula, em Pelotas. Nörnberg foi assassinado em uma ação da Brigada Militar, na madrugada de quinta-feira.
O clima entre os que estavam no local era de consternação e tristeza. O microempresário Gilvane Casarin Ludtke conhecia a vítima há mais de 30 anos. Para ele, o produtor rural era um exemplo de vida. “Era um homem que trabalhava muito e desde pequeno ajudou os pais na lavoura, estudou, se formou e foi para Caxias do Sul. Como o pai teve um problema de saúde, voltou para cuidar dele e investiu na agricultura”, recorda.
Ludtke ainda afirma que o produtor rural trabalhava, sem folgas, com a produção de morangos em estufa. “Ele, trabalhava de domingo a domingo, 18 horas por dia, levantando de madrugada para montar a barraca na feira, para trabalhar. Quando resolvia dormir estava exausta. O que houve foi uma injustiça muito grande”, lamenta.
Segundo ele, está muito difícil aceitar o que ocorreu. “Era algo que jamais se imaginou passar. Não tem explicação o que fizeram com ele, uma covardia”, opina. Durante o velório, o caixão esteve o tempo todo fechado, devido ao estado do corpo, alvejado por vários tiros. Para os vizinhos, como a enfermeira aposentada Ivani Ludtke, a vítima era muito prestativa.
“Ele era muito dedicado à família e ao pai. Deixa uma lacuna muito grande. Olhar em direção à casa deles e não vê-lo trabalhando na colheita de morangos ou cuidando do gado será difícil. Vai levar muito tempo para nos acostumarmos com tudo isso”, desabafa.
Após o sepultamento, o enteado, que considerado Nörnberg como um pai, Rodrigo Motta, revela que a sensação é de derrota. “Ficamos sem reação, atônitos. Ainda não conseguimos nos debruçar sobre as informações que recebemos. Queremos justiça, que acho que é o que se exige este tipo de situação”, relata. Sobre o futuro, ele afirma não saber como será. “Desde a madrugada de quinta-feira, minha mãe não comeu e nem dormiu. Ela é a matriarca, vai tomar as decisões, o que decidir vamos apoiar, dar o suporte”, garante.
Para Motta, o produtor rural deixou um legado de esforço, de entrega, de trabalho, de carinho e de amor. “Principalmente de entrega. Ele trabalhava para prover. Era um provedor. Ele não teve oportunidade de usufruir o que ele conquistou para a nossa família”, lamenta. Em relação à ocorrência policial relatar que foi encontrado dinheiro em espécie no local do crime, o enteado revela que como feirante, a família trabalha com valores em espécie e eles estavam juntando para pagar a parcela de um trator que vence em fevereiro. “Sobre a arma, estava regular”, garante.
“Só olhei ele pelo vidro, pois ele estava com o rosto destruído”
A viúva de Raquel Amorim Motta Nörnberg não escondia a tristeza. “Me despedi da pessoa que mais amei, sem poder tocá-la”, comenta. “Só olhei pelo vidro, pois ele estava com o rosto destruído. Por um outro lado, estou feliz, pois vi tantas pessoas que amavam ele no nosso lado, nos apoiando, que valorizavam a pessoa maravilhosa que ele era, então é uma mistura de sentimentos”, admite.
Raquel disse que ainda não parou para pensar nos próximos passos da família, mas garantiu que irá permanecer em Pelotas. “Em Pelotas vamos seguir, aqui estão nossas raízes, o motivo de termos voltado. Ainda não sabemos do futuro, se plantando morango ou não. Talvez em uma semana saberemos o que fazer, vamos ter que recalcular algumas rotas”, pondera.
Policias militares afastados
A Corregedoria da Brigada Militar está em Pelotas para investigar a ação e já afastou todos os policiais envolvidos na ocorrência. “A Polícia ainda não escutou a família, o que deve ocorrer na próxima semana. Meu marido em nenhum momento saiu da nossa casa. Ele foi alvejado dentro de casa. Temos advogado que está cuidando de tudo isto”.
Um dos pontos investigados é a humilhação que Raquel passou durante as quase duas horas, ajoelhada que não foi autorizada a sair do local do crime. “Temos que prestar depoimento na semana que vem e não me pediram que fizesse exame de corpo de delito, o que questionamos. Me trataram como uma criminosa. Para os policiais militares eu era isto, até a chegada da Polícia Civil que esclareceu que eu não tenho antecedentes”, finaliza.
Fonte: Angélica Silveira / Correio do Povo