
Inédita na história do PT gaúcho, a possibilidade de intervenção nacional que obrigue o RS a retirar a pré-candidatura de Edegar Pretto ao governo do Estado e apoiar Juliana Brizola pode acontecer de três formas.
Uma delas seria a convocação de um outro encontro estadual, que anulasse o deliberado naquele realizado em dezembro, e decidisse pela adesão à Juliana. Mas, além de muito trabalhosa e com preparação demorada, a alternativa é a que mais envolveria diretamente as bases. O evento de dezembro foi precedido de 50 encontros regionais e setoriais e estabeleceu não só nomes, como diretrizes para a campanha de 2026. Em função disto, e do cenário atual, o resultado seria imprevisível, e com potencial para escalar ainda mais a crise.
A segunda possibilidade é a que vem sendo chamada de ‘teatro da saída digna’. Nele, Pretto anuncia que, como a prioridade é a reeleição de Lula acima de tudo e isso depende do PDT, ele, após muita reflexão, abre mão da pré-candidatura. Na sequência, a grandeza do gesto é enaltecida pelas principais lideranças do partido e o presidente da Conab entra na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados. Pretto e o comando do PT no RS, contudo, têm, até o momento, resistido a participar da encenação. Na quinta-feira, quando chegou na Fecomércio, o petista não só dobrou a aposta como enviou recados cifrados ao comando nacional da sua sigla e ao PDT.
“Não vamos retirar nossa pré-candidatura. É uma decisão coletiva do PT, onde exercemos na plenitude a democracia interna. No nosso partido, as instâncias funcionam e são respeitadas. Também estamos construindo um palanque forte para a reeleição do presidente Lula, já são seis partidos comigo (as federações PT/PCdoB/PV e PSol/Rede e o PSB), em uma frente que tem clareza ideológica”, disparou Pretto.
Entre os que lançam o fogo amigo contra Pretto, sua resiliência é considerada uma estratégia para forçar um pedido público de Lula pela desistência, consolidando sua imagem de líder da resistência. Uma solicitação direta de Lula dificilmente seria negada. Mas, para os articuladores do presidente da Conab, além de um envolvimento aberto não ser característico de Lula, se fosse essa a ideia, o presidente não teria deixado o gaúcho ter avançado tantos passos na mobilização da militância.
A terceira alternativa é uma intervenção direta, e pública, do comando em Brasília no diretório do RS. Funciona assim: o diretório nacional aprova uma resolução de que, no RS, o partido não terá candidato ao governo e a política de alianças será a do apoio ao nome de Juliana Brizola para a disputa ao cargo. Em condições normais, após a resolução, a direção estadual do partido encaminharia os termos das negociações e o fechamento da chapa, com indicação de um vice que não será Pretto. A direção estadual, contudo, não se mostra disposta a operacionalizar a intervenção.
Entre lideranças gaúchas, as conversas são outras. A desmobilização da militância, que é tratada como fato e não possibilidade. O esvaziamento da atual presidência estadual, que tem à frente o deputado Valdeci Oliveira. O impacto da entrada de Pretto em uma chapa proporcional, que tiraria da lista companheiros já em campanha. E a relação com o PSol.
Apesar de não admitirem publicamente, lideranças do PSol já tratam com alas do PT sobre a possibilidade de saírem da coalizão e lançarem candidatura própria ao governo caso Pretto seja substituído por Juliana. Estas mesmas alas petistas não só incentivam o movimento como assinalam sua simpatia pelo nome que surge nas conversas: o do vereador Pedro Ruas. Antes de se filiar ao PSol, em 2004, ele integrou, por mais de duas décadas, os quadros do PDT.
Fonte: Flávia Bemfica / Correio do Povo