
O primeiro bimestre de 2026 encerra com mais incertezas quanto aos rumos do comércio exterior. A primeira notícia foi a derrubada, pela Suprema Corte dos Estados Unidos, da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, em inglês), utilizada para justificar o tarifaço, em 20 de fevereiro. Boa notícia para o Brasil, que se livraria das tarifas que ainda vigoravam, de até 50%. Imediatamente, porém, Trump acionou a Seção 122 do Código de Comércio, que permite a imposição de tarifas de importação de até 15% no prazo de 150 dias na presença de déficits na balança de pagamentos que possam sugerir uma crise cambial e sua renovação, então depende do Congresso. Mesmo nesse caso, o cenário para as negociações entre os Estados Unidos e o Brasil, que deveriam ocorrer no mês de março, ajudaria o Brasil. Um cenário é iniciar negociações com tarifas de 50% incidentes sobre cerca de 22% da pauta de exportações e outro com tarifas de 15%.
A segunda notícia foi o ataque dos Estados Unidos, junto com Israel, ao Irã, o que aumentou o grau de incerteza e imprevisibilidade que tem dominado o comércio mundial desde o começo do governo Trump 2.0. O impacto na economia e no comércio mundial dependerá, em parte, da duração e da extensão do conflito para outros países. O aumento do preço do petróleo, que se reflete no aumento dos custos de transporte, o aumento nos custos de logística e as pressões inflacionárias podem retardar movimentos de queda de juros que eram esperados em vários países e, logo, são fatores que sugerem menor crescimento da economia mundial e do comércio.
Para o Brasil, pode haver ganhos com o aumento no preço do petróleo, mas o país é importador de óleo diesel, que também terá alta de preços. A participação do Oriente Médio nas exportações brasileiras foi de 4,6% em 2025. Em adição, para alguns produtos, esse mercado é relevante: carne de aves (35,2% do total exportado em 2025), açúcar e melaços (17,0%) e milho não moído (16,2%), por exemplo. Nesse caso, num momento em que o Brasil procura diversificar o destino das suas exportações, perdas de mercados impactam a balança comercial. Do lado das importações, alguns países são importantes para a importação de insumos para fertilizantes utilizados pelo Brasil. Por exemplo, 14,8% das importações de ureia do Brasil têm origem em Omã. A participação do Oriente Médio nas importações brasileiras foi de 2,6% em 2025. No Anexo Especial, apresentamos a pauta de exportação e importação do Brasil com os países do Oriente Médio, descrevendo a participação dos dez principais produtos no comércio total do Brasil e em cada país.
PRIMEIRO BIMESTRE
O conflito no Oriente Médio traz dúvidas quanto à possibilidade do encontro que ocorreria entre Trump e Lula em março para acertar um acordo que, do ponto de vista do Brasil, contribuiria para reduzir tarifas e negociar questões como a exploração de terras raras, plataformas digitais, entre outras. Em adição, Trump tem acelerado acordos com os países latinos, como a classificação de grupos de narcotráfico como terroristas, posição à qual o Brasil é contrário. Fica cada vez mais difícil isolar questões técnicas de comércio de temas de geopolítica e interesses geoeconômicos num diálogo com os Estados Unidos.
A Balança Comercial do primeiro bimestre: o avanço das importações de automóveis num quadro de queda das importações totais. O saldo da balança comercial em fevereiro superou, como em janeiro, o do ano de 2025. Em janeiro, a melhora do saldo se deveu a um recuo de 9,8% nas importações e de 1,0% nas exportações. Em fevereiro, a melhora é explicada por um aumento de 15,6% das exportações e queda de 4,8% nas importações. No bimestre, o saldo de 2026 foi de US$ 8,0 bilhões; em 2025, foi de US$ 1,9 bilhão.
O saldo da balança comercial por principais parceiros. A melhora no saldo da balança é atribuída à China, com ganho de US$ 5,12 bilhões entre o primeiro bimestre de 2025 e o de 2026. Entre os principais parceiros, a União Europeia registrou ganho de US$ 1,04 bilhão e os outros mercados selecionados registraram perdas. Na comparação interanual dos primeiros bimestres, o volume exportado aumentou para a China (27,7%), países da América do Sul, exceto Argentina (7,4%), União Europeia (4,1%) e países da Ásia, exceto China (3,2%). A queda para os Estados Unidos foi de 19,9% e, para a Argentina, de 27,7%. A queda na Argentina se explica pela retração nas vendas de automóveis, que impulsionaram as exportações para esse país até o início do segundo semestre de 2025. As importações caem para todos os mercados, exceto países da Ásia, exceto China, com aumento de 18,3%.
Em valor, as commodities cresceram 5,4% e as não commodities, 6,5%. O maior crescimento das não commodities é explicado pelo aumento de preços (8,6%), pois o volume recuou em 2,0% entre os dois primeiros bimestres do ano. No caso das commodities, o aumento do volume em 9,3% foi em parte compensado pela queda de 3,5% nos preços. A cesta de commodities do ICOMEX, na comparação dos bimestres, registrou aumento no volume exportado no complexo de soja, carnes, outros agrícolas, minério de ferro, outros minerais, petróleo e derivados, e queda para o etanol. Os preços só aumentaram para o complexo de soja, carnes, minério de ferro e etanol.
No mês de janeiro, a exportação por setor de atividade mostrou a liderança da agropecuária em termos de valor (9,8%), puxada pelo aumento de preços (+6,0%) e com avanço no volume de 3,7%. No mês de fevereiro, isso muda. A liderança passa para a extrativa, que, na comparação com fevereiro de 2025, cresceu em valor 55,4%, enquanto a agropecuária aumentou 8,1% e a indústria de transformação, 5,9%. Em termos de volume, as exportações da extrativa cresceram 61,7%, as da transformação, 3,4%, e as da agropecuária, 2,0%. Os preços crescem na agropecuária em 6,6%, na transformação, 2,5%, e recuam 3,6% na extrativa.
COMPARAÇÃO
O resultado da comparação bimestral, em que o desempenho da extrativa em fevereiro fez com que ela liderasse o resultado do bimestre, com aumento de 15,9%, seguida da agropecuária, com 8,5%, e da transformação, com 1,0%. O resultado da extrativa foi puxado pelo desempenho das exportações de óleo bruto, que aumentaram em volume 110,9%, acompanhado de queda de preços de 15,9% entre os meses de fevereiro de 2025 e 2026.
A queda das importações é generalizada na economia para bens de capital e bens intermediários na indústria de transformação e na agropecuária. O recuo nas compras de bens intermediários na comparação bimestral foi de 15,1% e de 4,3% para máquinas e equipamentos na transformação. No entanto, houve aumento de 53,6% para bens de consumo duráveis e de 4,9% para semiduráveis. O aumento dos bens duráveis é explicado pelas importações de automóveis de passageiros, que cresceram 68,4% entre os dois primeiros bimestres do ano. A China explicou 66,4% das compras de autos em janeiro e 58,8% em fevereiro.
A taxa de câmbio efetiva real teve uma pequena valorização na comparação entre os dois primeiros bimestres de 2025 e 2026, no valor de 2,9%. As turbulências da política de Trump levaram a um aumento na entrada de capital em mercados emergentes, em especial com taxas de juros elevadas. O conflito no Oriente Médio levou a uma desvalorização no início de março, que depois recuou. A volatilidade cambial deverá ser a marca nesses tempos de conflitos, quando predominam as incertezas quanto aos rumos desse quadro.