
O Copom (Comitê de Política Monetária), do Banco Central inicia na manhã desta terça-feira, 28, uma nova reunião para discutir a composição da taxa Selic e se repetirá a redução da taxa básica de juros da economia brasileira de 25 pontos percentuais verificado no último encontro, para 14,50%. O foco, porém, não estará nas decisões em si, que já são amplamente antecipadas, mas nos comunicados e nas coletivas de imprensa dos presidentes dos respectivos bancos centrais. A questão central é a mesma desde o início de março: os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre a inflação e a atividade econômica global, sob o risco de estagflação — cenário que combina atividade econômica fraca com inflação elevada — nas projeções mais adversas.
Por ora, os bancos centrais adotaram a postura de “esperar para ver”, classificando a disparada do petróleo — e de outros insumos, como fertilizantes e matérias-primas industriais — como choque de oferta de natureza temporária. O que determinará a extensão desse choque sobre a inflação global, e num segundo momento sobre a atividade econômica, é a duração do conflito e, consequentemente, o tempo que o estreito de Ormuz permanecerá fechado — rota marítima por onde passa cerca de 20% do fluxo petrolífero mundial e parcela relevante da oferta de fertilizantes para a agricultura mundial.
“O Copom deve ressaltar novamente as incertezas do cenário externo, argumentando que a margem acumulada de restritividade permite dar continuidade à calibração gradual da política monetária. Por calibração entende-se a manutenção da taxa em patamar restritivo — ou seja, acima da taxa neutra, aquela que sustenta o crescimento econômico sem pressionar a inflação —, porém em nível menor. O principal desafio do Copom é a desancoragem das expectativas de inflação, já reconhecida publicamente pelo diretor de Política Monetária, Nilton David, e pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que manifestou preocupação com a elevação das projeções para 2028”, diz Leandro Manzoni, analista da plataforma Investing.com.
Na terça-feira, a prévia da inflação de abril — o IPCA-15 — deve registrar alta próxima a 1% no mês, puxada por combustíveis e alimentos in natura. Além desses componentes, a inflação de serviços seguirá em foco: embora mostre alguma desaceleração na margem e no acumulado de 12 meses, deve permanecer acima do limite superior de tolerância de 1,5 ponto percentual acima do centro da meta de 3% ao ano. No comunicado do Copom, três elementos merecem atenção especial: ● a projeção de inflação no horizonte relevante; ● a atualização do balanço de riscos, que se mantém inalterado há algumas reuniões, embora a mudança de cenário já justifique a introdução ou o remanejamento de fatores de alta e de baixa; ● e a sinalização sobre os próximos passos. O mais provável é que o Copom adote postura data-dependent, sem antecipar decisões futuras, possivelmente sinalizando, de forma indireta, que o conflito reduziu o espaço para cortes maiores, o que seria lido pelo mercado como comunicado de tom mais hawkish.
ENTENDA A SELIC
A taxa básica de juros é uma forma de piso para os demais juros cobrados no mercado. Ela serve como o principal instrumento do BC para manter a inflação sob controle, perto da meta estabelecida pelo governo. Isso acontece porque os juros mais altos encarecem o crédito, reduzem a disposição para consumir e estimulam alternativas de investimento.
Quando o Copom aumenta a Selic, o objetivo é conter a demanda aquecida, e isso causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Já quando os juros básicos são reduzidos, a tendência é que o crédito fique mais barato, com incentivo à produção e ao consumo.
A Selic é usada nos empréstimos entre bancos e nas aplicações que as instituições financeiras fazem em títulos públicos federais. É a taxa Selic que os bancos pagam para pegar dinheiro no mercado e repassá-lo em empréstimos ou financiamentos. Por esse motivo, os juros que os bancos cobram dos consumidores são sempre superiores à Selic.
(*) Com R7 e Investing.com