
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia foi aprovado na última sexta-feira (9) pelos países que compõem o bloco europeu e pode ampliar o acesso a mercados, reduzir preços ao consumidor e estimular a modernização produtiva, mas também traz riscos para setores sensíveis da economia brasileira, avaliam especialistas. Além disso, os efeitos práticos do tratado não devem ser observados imediatamente.
Para o economista Maurício Bento, professor de economia internacional na Hayek Global College, o acordo funciona como uma alternativa ao isolamento comercial diante do fortalecimento de grandes potências globais.
Entre os benefícios, ele destaca a entrada de produtos europeus mais baratos e o incentivo à atualização de padrões produtivos. Em contrapartida, alerta para o risco de desindustrialização, possíveis interferências regulatórias e o uso de exigências ambientais como barreiras protecionistas, prática que classifica como “extorsão verde”.
Na análise do advogado e especialista em comércio exterior Felipe Rainato, o principal beneficiado nas exportações brasileiras tende a ser o agronegócio, que já concentra a maior parte das vendas do Mercosul para o mercado europeu. Segundo ele, setores como mineração, metalurgia, têxtil, calçados, móveis e energia também podem ganhar espaço.
No fluxo inverso, as importações europeias devem favorecer áreas como automotiva, bens de capital, tecnologia industrial, farmacêutica e equipamentos médicos, com potencial de modernizar a indústria nacional e reduzir custos.
O consumidor final também pode ser impactado positivamente, com a queda de preços de produtos tradicionais europeus, como vinhos, queijos e chocolates.
Efeitos práticos devem levar tempo
Segundo Fabio Ongaro, vice-presidente de finanças da Italcam (Câmara Italiana do Comércio de São Paulo), os primeiros efeitos econômicos mensuráveis devem surgir entre dois e quatro anos após a entrada em vigor efetiva do tratado.
“Esse período reflete o tempo necessário para a redução progressiva das tarifas, a adaptação regulatória, a reorganização logística das cadeias produtivas e a maturação de novos contratos comerciais. Os ganhos estruturais mais relevantes, no entanto, tendem a se consolidar apenas entre sete e dez anos, quando a maior parte das barreiras tarifárias e não tarifárias estiver efetivamente eliminada ou reduzida”, opina.
Ongaro destaca que, para os países da União Europeia, os principais beneficiários serão os segmentos de automóveis e autopeças, máquinas industriais, equipamentos elétricos, químicos, farmacêuticos e cosméticos, que hoje são penalizados por tarifas no Mercosul que chegam a variar entre 20% e 35%, de acordo com ele.
“A eliminação gradual dessas barreiras pode elevar as exportações europeias para a região em algo entre € 15 bilhões e € 20 bilhões por ano no médio prazo. Além disso, o tratado amplia o espaço para investimentos diretos, serviços e infraestrutura, reforçando a presença europeia na América do Sul em um contexto de crescente competição geopolítica com Estados Unidos e China”, explica.
Para o Mercosul, Ongaro estima que, no curto e médio prazo, os maiores ganhos concentram-se no agronegócio exportador, com destaque para carnes bovina e de frango, açúcar, etanol, suco de laranja e alimentos processados.
“Estima-se que o aumento das exportações agrícolas para a União Europeia possa variar entre € 8 bilhões e € 12 bilhões por ano após a plena implementação do tratado. Esse movimento tende a reforçar o superávit comercial do bloco e ampliar receitas externas”, comenta.