
A quase uma semana do prazo para a entrada em vigor de novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, representantes da indústria, agronegócio e da oposição participam nesta terça-feira (7) da audiência pública do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) para tentar reverter a medida. A etapa é considerada decisiva para a manutenção ou não da taxa.
No começo de junho, o governo do presidente Donald Trump propôs uma nova tarifa punitiva de 25%, alegando supostas práticas desleais do Brasil. Em outra investigação sobre trabalho forçado no país, os norte-americanos sugerem uma taxa de 12,5%.
Com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, o USTR tem ampla autoridade para adotar diversas medidas em resposta a essas práticas desleais, com o objetivo de eliminá-las ou resolvê-las, incluindo a imposição de tarifas e outras restrições sobre bens ou serviços.
Segundo o governo dos EUA, os participantes devem apresentar depoimento oral preparado, com duração máxima de cinco minutos, perante a Subcomissão Especial 301, pessoalmente e em inglês. As agências membros da subcomissão podem fazer perguntas após a declaração preparada.
O senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, está entre os participantes da audiência e deve ser ouvido às 10h do horário local (11h no horário de Brasília). Na última semana, em uma carta enviada à USTR, Flávio pede a suspensão da tarifa e alega uma suposta exploração política por parte do governo Lula.
No documento, o parlamentar chegou a propor que, em vez de tarifas, os EUA usem sanções que atinjam apenas autoridades que ele considera responsáveis pelos problemas institucionais no Brasil.
Além de Flávio, empresários também devem defender a retirada das tarifas, alegando um impacto econômico negativo para ambos os países, baixas tarifas para produtos americanos, além da redução de 37,5% nos alertas de desmatamento na Amazônia entre agosto de 2025 e maio de 2026, entre outros.
Entre os setores industriais está a CNI (Confederação Nacional da Indústria), que tenta defender o Pix, apontando ser análogo à estrutura do U.S. Federal Reserve (Fed) e que o sistema é aberto e “não discriminatório”, tendo beneficiado, também, empresas americanas.
O Pix está entre os alvos do governo Trump, sendo constantemente criticado pelos EUA. No ano passado, o governo norte-americano fez uma investigação contra práticas comerciais “desleais” do Brasil, entre elas, o Pix. Segundo eles, a obrigatoriedade de adesão para grandes instituições poderia prejudicar concorrentes internacionais.
O que esperar
Ao R7, o especialista em comércio exterior Jackson Campos acredita que, apesar da pressão técnica e política da audiência, a decisão não deve ser imediata. A participação dos setores empresariais representantes é vista como relevante, uma vez que permite mostrar que a taxa prejudicaria não só o exportador brasileiro, mas também empresas americanas, explica.
Entretanto, Campos analisa que a fala de Flávio tende a ter mais peso político do que técnico. Ainda assim, o senador deve ter cautela na fala, que pode acabar reforçando as alegações dos EUA, podendo, ainda, ter um viés político.
“É importante separar as coisas: ele fala como senador e ator político, não como representante oficial do governo brasileiro. Se a fala for conduzida no campo econômico, defendendo previsibilidade, diálogo bilateral e proteção das cadeias produtivas, pode ajudar a reforçar o argumento contra a tarifa. Agora, se a participação transformar a audiência em disputa eleitoral brasileira, existe risco de ruído adicional nas negociações, porque os EUA podem interpretar o tema mais como conflito político interno do que como uma discussão comercial objetiva”, pontua.
Considerando o potencial risco aos EUA, que também podem sair perdendo com as tarifas, Campos acredita que Trump recue, adie ou calibre a medida.
“Não necessariamente um recuo total, mas pode haver suspensão temporária, ampliação de exceções, negociação setorial ou postergação da decisão. As tratativas entre os governos continuam, e uma reunião recente entre Brasil e USTR foi descrita como parte de um processo ainda em andamento”, concluiu.
‘Mapa do caminho’
Nos bastidores diplomáticos, o Brasil também tenta construir uma saída negociada para evitar a escalada comercial. Como mostrou o R7, o governo brasileiro apresentou aos EUA uma proposta de “mapa do caminho” para suspender o tarifaço, com a abertura de uma agenda de negociação bilateral voltada à solução dos principais pontos de conflito.
A estratégia do governo é tentar ganhar tempo e evitar que a tensão comercial se transforme em um impasse diplomático de maiores proporções, sobretudo em meio ao ambiente pré-eleitoral tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
As audiências em Washington devem servir como termômetro para a decisão final do governo americano sobre a adoção ou não das tarifas. A expectativa é de que os depoimentos desta semana ajudem a calibrar os próximos passos da Casa Branca nas negociações com o Brasil.


