
O rio Caí começou a baixar em Montenegro nesta quarta-feira, depois de atingir 7,91 metros na noite anterior, na maior enchente registrada no município neste ano. Enquanto a água recua, moradores acompanham o nível do rio e aguardam a liberação das ruas, ainda inundadas, para iniciar a limpeza e o retorno às casas. Para quem vive nas áreas mais baixas da cidade, porém, a cena já se tornou recorrente: depois de sucessivas enchentes, o sentimento de tristeza se transforma em resignação para quem aprendeu a conviver com a elevação do rio.
Segundo o coordenador da Defesa Civil, Cássio de Vargas, cerca de 25 famílias precisaram deixar suas casas e foram encaminhadas ao abrigo montado no Parque Centenário. Ao todo, 64 pessoas estão no local. A Defesa Civil também retirou animais das áreas atingidas, encaminhando 80 cães e um gato para o abrigo municipal.
“Agora estamos fazendo o rescaldo, até o nível do rio voltar à cota normal e liberar as ruas”, afirma Vargas. Segundo ele, a tendência é de queda do nível, que estava em 7,58 metros durante a manhã.
A secretária de Desenvolvimento Social, Cidadania e Habitação, Daniela Boos, estima que cerca de 140 casas tenham sido atingidas, embora o número ainda seja preliminar. No Parque Centenário, cerca de 60 pessoas permaneciam acolhidas. A expectativa é começar o retorno das famílias às residências conforme as condições permitirem.
Enquanto isso, equipes da prefeitura também levam alimentos de barco a moradores que permaneceram nas áreas alagadas. “A gente ontem levou marmita para quem não estava conseguindo sair e estamos auxiliando, de acordo com a necessidade das famílias”, conta Daniela. Segundo ela, as famílias atingidas são, em sua maioria, de áreas mais próximas ao rio e de menor renda.
Recuo do rio é acompanhado com apreensão
Na rua Assis Brasil, o aposentado Paulo Osmar Hendges, 66 anos, acompanhava a situação e observava as casas atingidas. Ele lembra que esta foi a terceira enchente do ano, mas a pior entre as mais recentes. “O pessoal teve que sair de casa novamente, mas, infelizmente, já estão acostumados. Eles não conseguem sair daqui. Todos querem vender, mas ninguém quer comprar”, resume.
Hendges conta que cresceu em uma casa atingida pelas cheias e ainda tem um irmão que vive na região. Quando há previsão de enchente, ele já se prepara e compra mantimentos para permanecer em casa. “Olhando assim, parece que não tem ninguém, mas o pessoal evita de sair de casa. Os imóveis são altos e muitos estão lá dentro”, relata.
Também morador da região, o advogado aposentado e ex-vereador, Valmir Oliveira, 84 anos, vive no local desde os 15. A casa antiga onde morava nunca havia sido atingida pela água. Depois, construiu uma nova residência e, em 2024, perdeu tudo quando a água chegou a 1,30 metro dentro da moradia. “É muito dolorido passar por isso”, resume.
Desta vez, porém, acompanhou as informações sobre o comportamento do rio e conseguiu permanecer em casa sem novos prejuízos. Oliveira lembra que o pai costumava contar sobre a enchente de 1941, considerada por muito tempo a maior registrada na cidade. Para ele, a de 2024 superou todas as anteriores.
Na rua Otaviano Moogen, no bairro Industrial, o cenário era de movimento de barcos. A via servia como ponto de encontro das pequenas embarcações utilizadas pelos moradores para entrar e sair das áreas alagadas. A enfermeira Luciana Oliveira, 53 anos, conta que a água chegou ao pátio de sua casa, deixando a família ilhada.
Em 2024, eles também precisaram deixar a residência. Desde então, voltam diariamente para cuidar dos cães e verificar os móveis e pertences que permaneceram no imóvel. “Parece que cada vez estão ficando mais altas as enchentes”, diz Luciana, que mora na região há 36 anos.
A rotina dos barcos também virou parte do dia a dia de quem precisa trabalhar. Proprietário de uma lancheria na área atingida, Luciano de Vargas, 52 anos, utiliza uma embarcação para chegar até a região onde consegue acessar o asfalto. De lá, segue de moto para fazer as entregas das marmitas. “Tem que ser assim para continuar. A gente precisa trabalhar e as pessoas precisam comer, então é o jeito que conseguimos dar”, afirma.
Segundo a Defesa Civil, além das residências, duas escolas, sendo uma estadual e uma particular, tiveram atividades afetadas durante a enchente. A previsão é de que, com a continuidade da baixa do Rio Caí, as equipes iniciem o trabalho de limpeza e retomada das áreas atingidas.
Fonte: Correio do Povo

