
O 54° Festival de Cinema de Gramado exibiu, na noite de sábado, o filme “Feito Pipa”, de Allan Deberton. Rodado na região do município de Quixadá (Ceará), a história acompanha o menino Gugu (Yuri Gomes), que é criado pela avó Dilma (Teca Pereira). Ao longo da narrativa, é revelado que a mãe de Gugu morreu há muitos anos atrás, lutando contra a construção de uma barragem que inundaria sua cidade. Em entrevista coletiva neste domingo, o roteirista André Araújo contou que uma das questões que inspirou o filme foi o fato de ter feito um trabalho em uma cidade que seria submersa pela construção de uma barragem.
Ao conversar com as pessoas que teriam as casas inundadas pelo novo curso do rio, em outro Estado, o roteirista ficou comovido. E esta é uma das questões abordadas pelo filme. No município fictício onde se passa a história, isso aconteceu, com o rio cobrindo até toda a igreja. Com a quantidade de água diminuindo e o rio recuando devido à falta de chuvas, a ponta da igreja começa a aparecer. E este fato vai tocar profundamente a avó de Gugu. Dilma começa a gritar pelo nome da filha, já falecida. Na entrevista coletiva, o roteirista contou que colocou o nome de Dilma na personagem da avó em homenagem à ex-presidente Dilma Roussef.
Gugu vai percebendo que a avó começa a perder a memória recente, enquanto lembra de fatos mais antigos. “Resolvi escrever sobre memória. Ao mesmo tempo em que a ponta da torre antiga igreja começa a aparecer e as ruínas da cidade ficam visíveis, a memória da avó vai se perdendo”, explicou o roteirista. Outra questão é sob o menino Gugu. Criado pela avó, ele tem pouco contato com o pai, interpretado por Lázaro Ramos, que se casou novamente e criou outra família.
Lázaro Ramos, que está no elenco tanto do filme que foi exibido na sexta-feira, “Antártida”, como no que foi exibido no sábado, “Feito Pipa”, diz que gosta de construir seus personagens coletivamente, em diálogo com as pessoas no set. Ramos contou ainda que o trabalho com o diretor Allan Deberton começou em Gramado. “Quando assisti ao filme ‘Pacarrete’, no Festival de Gramado, fiquei enlouquecido.
Fui atrás do Allan e disse: no próximo filme que você fizer, quero participar”. “Pacarrete” foi o grande vencedor do Festival de Gramado em 2019, ganhando oito Kikitos. Deberton retorna agora a Gramado com um filme sensível e tocante, que se passa no Nordeste. Enquanto em “Pacarrete”, a protagonista era amante do balé e se sentia deslocada na cidadezinha em que vivia, agora o foco é como as crianças queer do sertão são tratadas.
Criado de forma livre pela avó, Gugu transita entre o masculino e feminino. Ele gosta de jogar futebol e não foge de uma briga. Mas também gosta de usar bijuterias e enfeites, experimenta maquiagem e gosta muito de dançar, inclusive com a avó, além de fazer acrobacias. Na casa onde vivem, ouvir música é um hábito.
O pai frequentemente reprime o filho, com receio de que seja motivo de riso. Neste universo, Gugu enfrenta bullying na escola e se torna cada vez mais preocupado com a avó, sua maior referência em afeto. “Apesar de o filme esbarrar em várias situações de dor, ele levanta reflexões e há uma esperança”, opina Lázaro Ramos. O longa-metragem, que trata de questões delicadas sem cair em clichês, chega aos cinemas no dia 5 de novembro.
DOCUMENTÁRIO Na noite de domingo, foi exibido o documentário “O Projeto”, com direção da brasileira Sabrina Fidalgo e do suíço Yvan Rodic. A dupla investiga a fundo questões como o racismo estrutural e para isso, pesquisa o colonialismo como ponto chave para se entender a história até os dias atuais.
No longa, o depoimento de Rodic revela que dentro da Suíça havia preconceito com estrangeiros oriundos da Europa Oriental. Como seu pai era da antiga Iugoslávia, ele sentia vergonha do sotaque do pai e contou ainda que o pai nunca fez amigos suíços. A dupla pesquisou sobre a cidade de Nova Friburgo (RJ), que recebeu colonização suíça, e descobriu que os grupos pioneiros da região trabalharam para que ela fosse ocupada somente por brancos, “empurrando” pessoas pretas para outros espaços.
Fonte: Adriana Androvandi / Correio do Povo


