
Entre filmes e burburinhos, a cena de cinema do Rio Grande do Sul se reúne todo ano na Mostra Competitiva de Curtas Gaúchos, que começou neste sábado, dia 15, no Festival de Cinema de Gramado. A seleção do primeiro dia mostrou a diversidade das produções gaúchas, indo de animações a faroestes, de Imbé a Rio Grande.
A sessão 1 contou com os filmes “Procura-se Ator” (dir. Airton Tomazzoni e Laura Lautert), “Claudete” (dir. Gabriela Kopp), “Coisa Ruim” (dir. Lucas Tergolina), “Grão” (dir. Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa) e “Batidão de Botas” (dir. Camila Santos, Daniel Galuppo, Esther Costa, Maria Eduarda Bandeira e Stella Mahle).
Já a sessão 2 apresentou “Banho Maria” (dir. Gabriel Faccini), “Raidinalha” (dir. Marco Arruda), “Manjericão” (dir. Eric Paul e Raphaela Serafim) e “Terra Bruta” (dir. Allan Rigs e Guilherme Suman).
Os curtas-metragens que fazem parte da seleção concorrem ao Prêmio Assembleia Legislativa. A cerimônia de premiação da Mostra Competitiva de Curtas Gaúchos, onde os filmes vencedores serão anunciados, acontece neste domingo, dia 16, às 20h, no Palácio dos Festivais.

LITORAL NORTE EM DESTAQUE
Na edição deste ano, o Litoral Norte do Rio Grande do Sul apresenta duas produções. Após a exibição de “Procura-se Ator”, filme de Airton Tomazzoni e Laura Lautert, ouviram-se gritos vindos do elenco: “Viva o Litoral” e “Viva Jeferson!”, o ator que protagoniza o curta, realizado especialmente para ele, na busca de criar um papel para uma pessoa com deficiência.
É justamente essa problemática que o filme explora em sua história, que mostra um jovem que, em meio a questões familiares, quer ir atrás do sonho de ser ator. Filmado no Litoral Norte, a partir de uma questão muito presente no território, “Manjericão” é um comentário sobre a especulação imobiliária. Protagonizado por Oscar de Lima, que atua também no “Procura-se Um Ator”, o curta-metragem retrata um casal que é impactado pela chegada de uma moderna construção.

UFPEL EM PESO
Na coletiva de imprensa após a sessão, que reuniu todos os realizadores que tiveram seus filmes exibidos no sábado, o mediador Luiz Carlos Merten perguntou à plateia: quem aqui é da UFPEL? A resposta foi bem clara, e mais da metade da sala levantou a mão. Uma das poucas universidades públicas do Rio Grande do Sul a disponibilizar cursos de cinema, a Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) marca presença no Festival de Cinema de Gramado.
Ouvem-se muitos aplausos e gritos dos estudantes, que trabalham e apoiam as produções realizadas na instituição e exibidas durante a programação. Entre essas produções, “Batidão de Botas”, que encerrou a sessão 1 da mostra gaúcha, é fruto de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do curso de Cinema de Animação da UFPEL. O curta-metragem mostra uma festa à fantasia onde a Dona Morte passa despercebida, coletando almas pelo caminho.
Dirigido a cinco mãos – Camila Santos, Daniel Galuppo, Esther Costa, Maria Eduarda Bandeira e Stella Mahle –, o trabalho coletivo é ressaltado pelos realizadores, que criaram um filme também inspirado nas experiências que viveram como amigos. Também da UFPEL, os egressos Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa retornam ao Festival de Cinema de Gramado, desta vez com a direção compartilhada em “Grão”.
Os cineastas buscaram inspiração em um dos símbolos da cidade de Rio Grande – os escombros do navio Altair, que encalhou na Praia do Cassino em 1976 – para criar o filme. Colocando em xeque o debate sobre masculinidade, o curta-metragem mostra as andanças de um homem que recolhe grãos de soja para vender. Em outros anos, a equipe da Saturno Filmes participou do festival com os curtas “Cassino” e “Construção”, este que foi eleito Melhor Filme da Mostra Gaúcha na edição de 2020.
O ator principal de “Grão”, Leandro Gomes, se interessou por atuação a partir do trabalho em outros filmes da produtora. Parte de uma trilogia, “Grão” chamou a atenção do público também por outro aspecto: uma trilha sonora marcante, com funks estralantes, perfeitos para estourar a caixa de som do cinema.

ENCONTROS E CONVERSAS
“Banho Maria”, em uma narrativa sensível, mostra o encontro de dois personagens, uma mulher de 36 anos e um menino de 12, em um parque aquático. Sobrinho do diretor Gabriel Faccini, Lukas Rodrigues interpreta o carismático menino, que logo consegue a simpatia da personagem de Silvana Rodrigues. É um filme que gira em torno de uma simples conversa, assim como “Coisa Ruim”, de Lucas Tergolina. O filme mostra uma conversa comum entre dois amigos, até o ponto de virada, quando o homem confessa que consegue fazer coisas acontecerem com o poder do pensamento – mas apenas coisas ruins, não boas.
Uma comédia rápida que conseguiu conquistar as risadas do público de Gramado. Logo antes, entretanto, foi exibido “Claudete”, de Gabriela Kopp, filme que mais se assemelha a uma carta do que a uma conversa. Revisitando memórias, agora marcadas pela ausência, a diretora ressignifica o vínculo com a mãe. Kopp e Tergolina até brincaram no palco, durante a apresentação, sobre como seus filmes, de gêneros tão diferentes, acabaram sendo exibidos um após o outro.

CENÁRIOS DEVASTADOS
Em meio à confusão da vida contemporânea, há filmes que buscam respostas tanto no passado quanto no futuro. “Terra Bruta”, de Allan Rigs e Guilherme Suman, prefere explorar o cenário dos pampas e a figura do gaúcho nos anos 1800 para mostrar uma narrativa de encerramento de ciclos abusivos de masculinidade, em uma tentativa de subverter as narrativas clássicas.
Já “Raidinalha”, um filme animado em pixel art, encontra beleza na companhia de sapos em um mundo pós-apocalíptico. O diretor Marco Arruda admitiu durante a coletiva que, após uma tentativa frustrada de fazer um filme sobre si, o curta e sua personagem foram inspirados em outra pessoa, o que guiou todo o processo de criação.
Fonte: Manu Couto / Correio do Povo


