
O recrudescimento do conflito no Oriente Médio recoloca os bancos centrais em estado de alerta justamente quando os indicadores começavam a sugerir a dissipação dos choques inflacionários observados entre março e abril. Depois de um período de relativa calma, que havia levado o petróleo para perto de US$ 70 por barril, o Brent voltou a se superar os US$ 80. A retomada dos ataques entre Estados Unidos e Irã mantém a commodity acima do nível anterior à guerra e sob elevada incerteza.
Segundo o analista Leandro Manzoni, da plataforma Investing.com, o impacto mais imediato tende a aparecer nos juros longos, que devem permanecer pressionados e voláteis, especialmente se a alta do petróleo contaminar as expectativas de inflação. “A questão central para as autoridades monetárias é determinar se as pressões recentes continuarão circunscritas a choques temporários de oferta ou se começarão a produzir efeitos mais disseminados sobre salários, serviços e formação de preços”, diz o analista.
A agenda desta semana testa essa leitura. No Brasil, serviços, varejo e IBC-Br de maio ajudarão a medir se a atividade desacelera o suficiente para consolidar um corte da Selic em agosto e manter aberta uma nova redução em setembro. O ponto de partida é o IPCA de junho, divulgado na última sexta-feira (10). A inflação subiu apenas 0,16%, bem abaixo das expectativas, com alívio em alimentos, serviços subjacentes e núcleos. “O resultado levou o mercado a transformar o corte de 0,25 ponto percentual da Selic em agosto no cenário-base e a começar a discutir uma nova redução em setembro”, argumenta Manzoni.
A melhora, porém, não foi uniforme. O Goldman Sachs destacou que o resultado teve composição relativamente favorável, mas mostrou serviços ainda elevados e disseminados. Os serviços intensivos em trabalho avançaram 7,13% em 12 meses, enquanto a média móvel anualizada desse grupo atingiu 7,5%. Nos bens industriais subjacentes, a média móvel anualizada acelerou para pouco acima de 6%.
A leitura é de melhora relevante, mas ainda insuficiente para afirmar que a desinflação está consolidada. Os dados de atividade desta semana ajudarão a calibrar essa interpretação. Em abril, o varejo caiu 1,5%, enquanto o volume de serviços avançou 1,2%. A indústria cresceu 0,7%, sustentada em parte por petróleo e extração, e o IBC-Br subiu 0,5%. Em maio, a produção industrial recuou 0,2%, frustrando a expectativa de crescimento. O Caged também mostrou criação de vagas abaixo do esperado, enquanto a PNAD continuou registrando desemprego historicamente baixo.
“A divulgação do volume de serviços de maio mostrará se o setor manteve a força observada em abril ou se os efeitos da Selic elevada começaram a se tornar mais visíveis. As vendas no varejo indicarão se a queda anterior foi pontual ou se representa uma tendência de enfraquecimento do consumo. Já o IBC-Br mostrará se serviços e outros setores conseguiram compensar a retração da indústria”, comenta o especialista da Investing.com.


