
A mobilidade urbana precisa ser tratada como infraestrutura crítica para o desenvolvimento econômico, social e ambiental do país. Essa é a avaliação de Gabriel Gomes de Oliveira, membro do IEEE – a maior organização técnico-científica do mundo dedicada ao avanço da tecnologia: “Não pode mais ser vista apenas como deslocamento, pois impacta diretamente produtividade, acesso a oportunidades, sustentabilidade ambiental e saúde pública. Quando falamos em mobilidade inteligente, estamos falando de competitividade nacional”, afirma o especialista.
O avanço acelerado da urbanização — com projeções internacionais indicando que cerca de 70% da população mundial viverá em áreas urbanas até 2050 — impõe novos desafios às cidades. O aumento da expectativa de vida e a crescente pressão sobre serviços públicos exigem sistemas urbanos mais eficientes e resilientes. Nesse contexto, a mobilidade deixa de ser apenas um serviço operacional e passa a integrar o conjunto de infraestruturas estratégicas que sustentam produtividade, competitividade e qualidade de vida. “Estamos diante de uma transformação estrutural. As cidades precisam operar com base em dados, e não apenas em estimativas. A mobilidade é um dos principais vetores dessa mudança”, explica.
Pesquisas acadêmicas desenvolvidas no Brasil, como o estudo conduzido na UNICAMP pelo pesquisador sobre a aplicação de Inteligência Artificial em Sistemas Inteligentes de Transporte (ITS), demonstram que a integração entre sensores embarcados, como por exemplo: IoT, e o advento/utilização de ferramentas para análise estatística permite transformar dados operacionais em instrumentos objetivos de gestão pública. Sensores embarcados em ônibus urbanos são capazes de monitorar variáveis como temperatura, ruído, velocidade média e fluxo de passageiros, produzindo evidências concretas para ajustes de frequência, redistribuição de frota e melhoria das condições ergonômicas dos usuários.
“Quando monitoramos temperatura, ruído e ocupação em tempo real, deixamos de atuar de forma reativa e passamos a planejar com base em evidência científica. Isso muda completamente a qualidade da decisão pública.”, destaca.
ESTATÍSTICA
A análise estatística dessas informações comprova que a mobilidade pode ser monitorada de forma estruturada, gerando ganhos operacionais, redução de desperdícios e impactos positivos na saúde pública e na sustentabilidade. No entanto, a adoção isolada de tecnologia não é suficiente para produzir transformação sistêmica. O principal gargalo brasileiro está na fragmentação entre concessionárias, municípios e estados, que operam com arquiteturas distintas e baixa integração de dados. “Sem interoperabilidade, cada sistema vira uma ilha. Podemos ter sensores avançados e algoritmos sofisticados, mas se eles não conversam entre si, o potencial da inteligência artificial fica limitado”, afirma.
A mobilidade inteligente também exige infraestrutura digital robusta. A convergência entre telecomunicações, computação em nuvem, edge computing e inteligência artificial é condição essencial para a gestão em tempo real de fluxos urbanos. Redes móveis de alta capacidade, integração de dados distribuídos e análise preditiva formam a base técnica de sistemas inteligentes de transporte. “Não há mobilidade inteligente sem conectividade. Telecomunicações, IA e transporte precisam operar como um único sistema. Essa convergência é o que sustenta a transformação urbana”, pontua o especialista.