
O conflito no Oriente Médio ofusca a super semana de juros ao redor do mundo. O barril do petróleo fechou a semana acima dos US$ 100 sob os efeitos do confronto entre Estados Unidos e Irã, após chegar a ser negociado próximo a US$ 120 no início da semana. Além da adição do prêmio de risco geopolítico sobre a commodity energética, as preocupações com a queda brusca da oferta tomaram conta do mercado nesta semana. Os investidores acompanham atentamente os desdobramentos do fechamento do Estreito de Ormuz — passagem entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos por onde transitam cerca de 20% da demanda mundial de petróleo.
A interrupção do fluxo de petroleiros pela rota levou a um acúmulo de estoques e à redução da produção pelos países exportadores da região. Somam-se a isso a paralisação de campos de produção e refinarias atacados pelo regime iraniano. O mercado tem duas preocupações em relação aos efeitos do conflito sobre o preço do petróleo. A primeira é a duração do conflito: quanto maior a demora para um cessar-fogo, maior o temor de escassez no mercado global. Medidas como a liberação de reservas pelos países membros da Agência Internacional de Energia aliviam temporariamente o problema de oferta. O desenvolvimento de novas rotas — por meio de oleodutos já existentes — pode reduzir a escassez relativa, mas não soluciona o problema por completo e pode tornar esses dutos em novos alvos de ataques iranianos.
A segunda preocupação diz respeito ao tempo de recuperação da produção e do escoamento de petróleo da região diante de um eventual cessar-fogo imediato. Uma vez interrompida, a produção pode levar semanas ou meses para retornar aos níveis anteriores, a depender do tipo de campo, da idade do ativo e da forma de paralisação. Em outras palavras, o fim do conflito não significará normalização imediata — com o preço do petróleo dificilmente recuando abaixo dos US$ 80 por barril nos próximos meses.
“Diante desse quadro, os bancos centrais se veem em um dilema: é impossível agir com precisão sem conhecer os reais efeitos dessa disparada nem saber se o barril pode avançar ainda mais. Com isso, a agenda econômica de 15 a 21 de março será marcada pelo monitoramento dos comunicados e das coletivas de imprensa dos decisores de política monetária”, diz Leandro Manzoni, analista da plataforma Investing.com.
Segundo ele, no Brasil, a Super Quarta coincide com a decisão de juros do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA). A dúvida central é se o Copom reduzirá a taxa Selic em 25 pontos-base ou optará pela manutenção na reunião de quarta-feira, 18. No último encontro, o Copom sinalizou estabilidade para fevereiro e abertura para corte a partir de março — mas o cenário internacional mudou de forma relevante desde então.
“O petróleo a US$ 100 por barril já levou a Petrobras a reajustar o preço do diesel, introduzindo novos vetores inflacionários num momento em que o IPCA de fevereiro veio acima do esperado e a desinflação de serviços no acumulado em 12 meses foi interrompida. Ao mesmo tempo, a atividade econômica tem surpreendido positivamente, com resultados acima do consenso na produção industrial, nas vendas do varejo e no setor de serviços”, comenta Manzoni.
PREOCUPAÇÃO
Antes da reunião do Copom, dois indicadores balizarão a decisão de juros no Brasil, ambos com divulgação nesta segunda-feira, 16. O IBC-Br de janeiro oferecerá a leitura do BC sobre a atividade no início do ano e confirmará — ou não — os dados apresentados pelo IBGE. O Boletim Focus, por sua vez, permitirá avaliar se as expectativas de inflação dos agentes de mercado permanecem em 3,8% para 2027, além de capturar as projeções para o movimento de quarta-feira na Selic e para o encerramento de 2026. Quanto à decisão do Copom, qualquer caminho tem fundamento. Um corte de 50 pontos-base — majoritário nas apostas do mercado antes da eclosão do conflito — deixou de fazer sentido.
O discurso de cautela e serenidade adotado pelo Copom abre espaço para um corte menor ou até para a manutenção da Selic em 15% ao ano.
Uma redução de 25 pontos-base seria um início adequado para o ciclo de flexibilização, tanto mais porque a taxa já se encontra em patamar altamente restritivo. Caso haja corte, a tendência é que o ciclo avance de forma gradual, no mesmo ritmo, nas reuniões seguintes.
A manutenção, por sua vez, também encontra justificativa na mudança do cenário externo, sem sinalizar novas altas para a reunião seguinte. Trata-se de um desfecho menos provável, mas que não pode ser descartado.
No Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, a maior preocupação dos dirigentes é com a inflação. Mesmo com o mercado de trabalho dando sinais de acomodação — após leve deterioração no segundo semestre do ano passado — e com a atividade econômica em desaceleração, a inflação segue como prioridade. Antes do conflito, ela já estava quase um ponto percentual acima do centro da meta. Com a disparada do petróleo, as atenções redobram.
O mercado precifica manutenção tanto em março quanto em abril — reunião que será a última sob o comando de Jerome Powell. Os primeiros cortes só devem ocorrer em outubro ou dezembro, segundo a ferramenta FedWatch da bolsa CME. Há economistas, entretanto, que projetam um único corte de 25 pontos-base para setembro.
O encontro de quarta-feira trará também o documento de Projeções Econômicas do Fed. A expectativa é de uma recalibragem: em dezembro, o documento apontava dois cortes em 2026; agora, é possível que esse número caia para um — ou até para zero.