
O conflito militar dos EUA e Israel ao Irã, que ocorrem desde o último sábado (28) de fevereiro, dão a tônica dos negócios no mercado financeiro global. A preocupação com o alastramento do conflito para outros países e a incógnita sobre o funcionamento do estreito de Ormuz elevaram a cotação do petróleo e os receios de restrições na oferta de fertilizantes, adicionando prêmio nas cotações de commodities agrícolas.
Não é somente a logística marítima que fica prejudicada com a obstrução de rotas e o encarecimento do frete e do seguro. A logística aérea global tampouco fica de fora. A retaliação iraniana ocorre em bases militares dos EUA em países do Golfo Pérsico, atingindo áreas civis. Como países do Oriente Médio, como Emirados Árabes Unidos e Qatar, são hubs para viagens entre Europa e Estados Unidos rumo à Ásia, o tráfego da aviação comercial e de cargas também sofreu com a necessidade de desvios devido aos mísseis lançados pelo regime iraniano.
“O resultado é pressão inflacionária contratada para as próximas semanas e meses. Essa é a única certeza, pois a intensidade do aumento do nível de preços dependerá da duração do conflito e das condições de navegação no estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do fluxo global de petróleo — a maior parte direcionada à Ásia”, comenta Leandro Manzoni, analista da plataforma Investing.com.
Se houver uma escalada da inflação com o barril de petróleo acima de US$ 100 por um período prolongado (o Brent encerrou a sexta-feira cotado a US$ 92,69 o barril – pico da semana), há risco de recessão econômica que, combinada com preços mais altos, poderia levar à estagflação. Este não é o cenário-base do mercado, que trabalha com o conflito se encerrando dentro do prazo estipulado pelo presidente Donald Trump — de quatro a seis semanas — e com o retorno, ao menos parcial, da navegação no estreito de Ormuz, com garantias de segurança pela Marinha dos EUA e do pagamento do prêmio alto dos seguros subsidiado pelo Tesouro americano. Será suficiente? Só o tempo pode responder.
“As negociações de ações, taxa de câmbio e juros futuros continuarão a precificar o conflito no Oriente Médio. A agenda econômica fica em segundo plano, mas longe de perder relevância”.
AGENDA SEMANAL
Na segunda-feira, 9, será divulgado o tradicional Boletim Focus pelo Banco Central do Brasil. O mercado vai monitorar se haverá continuidade da melhora das projeções do IPCA de 2027, após a expectativa cair de 3,8% para 3,79% na última edição. Além disso, os investidores observarão se os economistas consultados vão reduzir a magnitude esperada do corte da taxa Selic, de 0,50 para 0,25 ponto percentual, após a disparada do preço do petróleo, bem como se a estimativa da taxa básica de juros para o fim deste ano permanecerá em 12%.
Ainda na segunda-feira, à noite, o Japão divulga o Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre. O banco ING projeta revisão para cima do crescimento registrado na primeira prévia, de 0,1% para 0,3%. Na madrugada de segunda para terça-feira, a China volta aos holofotes com o resultado da balança comercial de fevereiro, com expectativa de robusto superávit de US$ 188,1 bilhões, de acordo com economistas do ING. A projeção é de alta interanual de 9,3% nas exportações e de 8,5% nas importações.
“Com o fechamento inesperado de vagas de trabalho em fevereiro, conforme divulgado no último payroll, qualquer dado do mercado de trabalho se torna sensível para a precificação dos ativos financeiros. Apesar de os indicadores de criação de emprego divulgados pela processadora de pagamentos ADP terem vindo positivos nas últimas semanas, caso o número acumulado em quatro semanas até a semana passada fique negativo, as apostas de corte de juros pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) devem se fortalecer para as reuniões de junho ou julho — as primeiras sob o comando de Kevin Warsh, indicado por Trump para suceder Jerome Powell a partir de maio”, diz Manzoni.
Além do aumento dos riscos no mandato do Fed relacionado ao mercado de trabalho, há também pressões crescentes sobre a estabilidade de preços, com a inflação ainda distante do centro da meta de 2% ao ano. Na quarta-feira, 11, será divulgada a inflação ao consumidor de fevereiro nos EUA, com expectativa de desaceleração do índice cheio na base mensal (de 0,3% para 0,2%) e manutenção no acumulado em 12 meses (2,5%), mas com aceleração do núcleo — que exclui itens voláteis como alimentos e energia — na base anual (de 2,4% para 2,5%) e estabilidade na variação mensal (0,2%).
INFLAÇÃO
Na quinta-feira, 12, será divulgada a inflação ao consumidor de fevereiro no Brasil. O mercado vai monitorar se o IPCA virá em linha com a prévia apresentada pelo IPCA-15, que surpreendeu ao vir acima do projetado, com pressão do setor de serviços, interrompendo a desinflação observada anteriormente no acumulado em 12 meses. Caso essa interrupção na inflação de serviços se confirme, somada às incertezas em torno do preço do petróleo nas próximas semanas, aumentam as chances de o Copom iniciar a flexibilização monetária com cautela na reunião de 17 e 18 de março, com corte de apenas 25 pontos-base, levando a taxa Selic de 15% para 14,75%.
“Em relação à atividade no Brasil, as vendas no varejo de janeiro serão divulgadas na quarta-feira, enquanto o volume de serviços no primeiro mês de 2026 será conhecido na sexta-feira. Após o avanço inesperado da produção industrial — que contrariou a projeção de contração ao registrar alta de 0,2% na variação mensal e de 1,8% na base anual — uma aceleração desses indicadores de atividade pode reforçar apostas em corte de 25 pontos-base na Selic na reunião seguinte”, diz o analista.