
Muitos investidores ainda recorrem grande parte de seus recursos em aplicações atreladas ao CDI ou na tradicional poupança, acreditando que essas opções representam, por si só, o melhor equilíbrio entre segurança e rentabilidade. Dados divulgados pela ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) em 2025, mostram que a renda fixa segue como a preferida dos brasileiros, concentrando a maior fatia do patrimônio financeiro das pessoas físicas no país. O volume total aplicado atingiu R$ 7,9 trilhões no final de junho de 2025, e a renda fixa representou 58,9% de todo o volume investido, ou seja, em média a cada 10 reais, 6 foram aplicados em produtos de renda fixa.
Fatores como a Selic em patamares de dois dígitos contribuem para um comportamento mais conservador por parte dos investidores. Quando a taxa básica de juros está elevada, o custo do crédito sobe, o consumo tende a desacelerar e os investimentos de renda fixa passam a oferecer retornos mais atrativos, ganhando espaço nas carteiras. Esse movimento, embora compreensível em um ambiente de juros altos, também evidencia uma concentração excessiva em poucas alternativas, o que pode limitar o potencial de diversificação.
Nesse contexto, a forte presença do CDI nas carteiras é impulsionada, em grande parte, pela forma como as instituições financeiras comercializam seus produtos, reforçando a ideia de que aplicações pós-fixadas são suficientes para proteger e rentabilizar o patrimônio. No entanto, essa concentração pode representar um custo de oportunidade relevante ao longo do tempo. Já a poupança, apesar de ainda ser vista como sinônimo de segurança e simplicidade, apresenta rentabilidade historicamente inferior a diversas alternativas disponíveis no mercado, muitas delas com risco semelhante e maior eficiência tributária.
O levantamento da ANBIMA evidencia que, dentro da própria renda fixa, há uma diversidade de produtos pouco explorados pelos investidores. Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e do Agronegócio (LCAs), por exemplo, seguem ganhando espaço por serem isentas de Imposto de Renda para pessoas físicas, o que melhora significativamente o retorno líquido. Títulos públicos, como o Tesouro IPCA+ e o Tesouro Selic, também oferecem proteção contra a inflação e previsibilidade, enquanto debêntures incentivadas, CRIs e CRAs podem entregar prêmios mais atrativos para quem aceita um pouco mais de complexidade na análise. Outra opção bastante atrativa é a diversificação internacional, que passou de ser algo sofisticado para se tornar uma estratégia cada vez mais necessária, tanto para a proteção patrimonial de pessoas físicas quanto para o fortalecimento financeiro de empresas.
DIVERSIFICAÇÃO
Ainda assim, a principal lacuna nas carteiras brasileiras está fora da renda fixa. Renato Sarreta, líder regional da XP no Sul, explica que a baixa diversificação entre classes de ativos limita o potencial de crescimento do patrimônio e aumenta a exposição a riscos específicos do cenário doméstico. “A diversificação não significa abandonar a segurança, mas sim distribuir riscos e oportunidades de forma inteligente, combinando ativos com comportamentos diferentes ao longo dos ciclos econômicos”, diz.
Nesse contexto, a atuação do assessor de investimentos ganha ainda mais relevância. Em um cenário de juros elevados, maior oferta de produtos financeiros e oscilações frequentes no mercado, tomar decisões sozinho pode levar o investidor a escolhas limitadas ou desalinhadas com seus objetivos. Segundo o especialista, mais do que indicar produtos, esse profissional participa do planejamento financeiro, auxiliando o investidor a definir objetivos claros, compreender seu perfil de risco e estruturar uma carteira alinhada às metas de curto, médio e longo prazo.
É justamente diante dessa complexidade que Renato faz um alerta: “A ausência desse acompanhamento faz com que muitos investidores permaneçam presos a soluções padronizadas, frequentemente mais convenientes para as instituições financeiras do que para o próprio cliente”, explica.
Para o líder da XP, o foco excessivo no CDI ou na poupança não é apenas uma escolha conservadora, mas um sinal de falta de estratégia. “Em um mercado cada vez mais sofisticado, investir bem exige informação, planejamento e diversificação”, cita ele, para quem ao ampliar o olhar para além das aplicações mais populares e buscar orientação especializada, o investidor aumenta suas chances de preservar o patrimônio, superar a inflação e construir resultados mais consistentes ao longo do tempo.