Sensação de alívio com as tarifas de Trump para o Brasil

Uma das dúvidas é saber se as taxas se somam ou substituem as atuais

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Ao final do anúncio das medidas tarifárias feitas pelo presidente norte-americano, Donald Trump, nesta quarta-feira, os analistas não descartaram a sensação de alívio com o cenário para as vendas externas do Brasil. Entretanto, o clima ainda é de incerteza. As taxas médias pagas pelas exportações brasileiras para os Estados Unidos são calculadas em 2,5% e passarão para 10%, índice bem abaixo do imposto para outros mercados. Para a União Europeia, será de 20% e, para a China, de 34%.

Uma das dúvidas a serem esclarecidas a partir desta quinta-feira, 3, é se as novas taxas se somam as atuais ou se passam a ser as únicas. Um setor muito próximo do Rio Grande do Sul, a indústria calçadista paga atualmente 17% e não está claro se a nova alíquota se soma ou se substitui a cobrada até então.

Conforme o analista por Adam Hetts, chefe global multiativos da Janus Henderson, tarifas altíssimas impostas a outros países cheiram a tática de negociação, mantendo os mercados em estado de alerta no futuro próximo. Felizmente, segundo ele, isso significa que há um espaço considerável para a redução das tarifas a partir daqui, embora com um piso de 10% já estabelecido.

“Já vimos que o governo tem uma tolerância surpreendentemente alta para o sofrimento do mercado, e agora a grande questão é quanta tolerância terá para uma dor econômica real à medida que as negociações avançam. Enquanto isso, a recuperação do S&P 500 após um bom relatório de empregos da ADP mais cedo serviu como um lembrete de que a economia em geral ainda é o foco. Os dados não agrícola desta semana receberão atenção extra, pois qualquer resultado muito aquém do esperado nesses indicadores alimentará temores de recessão”, diz Hetts.

Segundo dados do governo norte-americano, o superávit comercial dos EUA com o Brasil em 2024 foi da ordem de US$ 7 bilhões, somente em bens. Somados bens e serviços, o superávit chegou a US$ 28,6 bilhões no ano passado. Trata-se do terceiro maior superávit comercial daquele país em todo o mundo.

ENTENDA

O presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que vai impor uma tarifa básica de 10% sobre todas as importações para os Estados Unidos e taxas mais elevadas sobre alguns dos maiores parceiros comerciais do país. A expectativa é que a partir de hoje os até então parceiros comerciais dos EUA respondam com contramedidas próprias que podem levar a preços mais altos para tudo. “É a nossa declaração de independência”, disse Trump em um evento no Rose Garden da Casa Branca.

Durante o evento, Trump exibiu uma tabela que listava as tarifas recíprocas, incluindo 34% sobre a China e 20% sobre a União Europeia, além de 10% para o Brasil. O governo dos EUA publicou um aviso oficial sobre as importações de automóveis já anunciadas, e que entrarão em vigor a partir desta quinta, que se somam as divulgadas de 20% sobre todas as importações da China e de 25% sobre o aço e o alumínio.

Analistas alertaram que as tarifas poderiam desacelerar a economia global, aumentar o risco de recessão na economia interna dos Estados Unidos, e gerando inflação. Mesmo antes do anúncio do tarifaço, os dados revelam que o consumo dos americanos apresentou recuo em fevereiro, o que pode colocar em xeque empregos.

O governo brasileiro lamentou a decisão e não descarta a possibilidade de recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra o tarifaço dos Estados Unidos. No entanto, a prioridade é negociar a reversão das medidas anunciadas.

“Ao mesmo tempo em que se mantém aberto ao aprofundamento do diálogo estabelecido ao longo das últimas semanas com o governo norte-americano para reverter as medidas anunciadas e seus efeitos nocivos o quanto antes, o governo brasileiro avalia todas as possibilidades de ação para assegurar a reciprocidade no comércio bilateral, inclusive recurso à Organização Mundial do Comércio, em defesa dos legítimos interesses nacionais”, destacaram as duas pastas, em nota conjunta os ministérios das Relações Exteriores (Itamaraty) e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic)

O comunicado lembrou que as medidas de Trump violam as regras da OMC. O texto também ressaltou a aprovação pelo Congresso Nacional, em caráter de urgência, do projeto de lei que autoriza o Brasil a retaliar países ou blocos que imponham barreiras comerciais a produtos do Brasil, a chamada Lei da Reciprocidade.

(*) com Agência Brasil