Laboratório é suspeito de fraudar resultados de câncer em Pelotas

Nos últimos quatro anos, UBS Bom Jesus não registrou nenhum caso de alteração de colo de útero. Apenas um em cada 100 exames era realmente analisado

Exames encaminhados pela UBS Bom Jesus eram analisados por amostragem Divulgação Prefeitura de Pelotas

Um laboratório é suspeito de fraudar resultados referentes a pacientes mulheres com suspeita de câncer no colo uterino. Apenas um em cada 100 exames era realmente analisado. A empresa presta serviços para a Secretaria de Saúde da Prefeitura de Pelotas, no Rio Grande do Sul.

Médicos e enfermeiros da UBS Bom Jesus, na cidade gaúcha, que faziam a coleta de exame citopatológico do colo uterino notaram não ter sido identificado nenhum resultado alterado no período de janeiro de 2014 a junho de 2017. Uma tabela de exames da mesma unidade de saúde mostrou que antes desse período 44 resultados divulgados pelo laboratório apontaram câncer.

As amostras coletadas das pacientes vinham sendo analisadas por amostragem — a cada 100, somente uma era, de fato, analisada. Mesmo pacientes com lesões aparentes recebiam resultados de exames “normais”.

A situação resultou em um memorando da UBS destinado à Secretaria de Saúde do município. O texto utiliza como exemplo o caso de uma usuária que realizou duas coletas, nos anos de 2015 e 2017, e ambos apresentaram o resultado normal, ou seja, negativo para câncer.

Embora o último tenha dado negativo, a médica encaminhou a paciente para uma avaliação e consulta de ginecologista do Centro de Especialidades, já que diagnosticou uma lesão vegetante no colo uterino. Em seguida, a paciente consultou o médico e se submeteu a uma biópsia, cujo resultado apontou carcinoma epidermoide invasor de colo uterino, vulgo câncer de colo de útero.

Na busca por uma solução, a UBS solicitou providências em relação à análise das conclusões dos exames do laboratório.

Câncer de colo de útero

O câncer de colo de útero é o terceiro tumor mais frequente na população feminina, somente atrás de mama e do colorretal, além de ser a quarta causa de morte entre mulheres no Brasil.

Foram registrados 16.370 novos casos de colo de útero em mulheres somente neste ano, segundo o Inca (Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva). Para a região sul, estima-se o surgimento de 2.130 casos novos, para o biênio 2018-2019 — com risco de 14,07 casos a cada 100 mil mulheres.

Outro lado

A secretária da Saúde, Ana Costa, informou que, por medida de precaução, foram solicitados ao laboratório os relatórios de monitoramento interno de qualidade, com base no Manual de Gestão de Qualidade para Laboratórios Citopatológicos, feito pelo Inca, em 2012. Segundo a nota, a empresa se comprometeu a entregar os relatórios em 24 horas.

Ana disse ter “confiança na referida empresa”, uma vez que é credenciada pelo Ministério da Saúde, por ter o alvará de funcionamento (válido até 23 de novembro de 2018) e por entregar os registros de monitoramento interno de qualidade.

O órgão informou que volta a se manifestar sobre o assunto na próxima terça-feira.

A reportagem do R7 tentou entrar em contato com o laboratório, mas a Prefeitura de Pelotas disse não ter como informar o nome da empresa. A licitação desse contrato também não está disponível do site do órgão.

Deputada procura o MP

Ainda ontem, a deputada estadual Miriam Marroni (PT) entregou ao subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Institucionais, Marcelo Lemos Dornelles, documentos referentes à suspeita de fraude. Dornelles contatou o Ministério Público em Pelotas, que, de acordo com ele, já sabia do ocorrido e vai investigar o caso.