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WhatsApp vira frente de disputa entre campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro

A três dias do segundo turno das eleições presidenciais, o WhatsApp se tornou mais um campo de disputa entre as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Por meio de canais administrados por aliados políticos, os dois lados mobilizam milhões de seguidores com missões para conquistar votos e ampliar a circulação de mensagens favoráveis aos candidatos.

Os principais exemplos são o “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), e a “Tropa do Flávio”, criada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

Embora não sejam os canais oficiais dos presidenciáveis, os grupos concentram parte importante da mobilização digital das campanhas.

Daniela Alarcon, assessora estratégica da Bites, empresa de análise de dados digitais, avalia que o crescimento representa uma mudança no cenário da disputa política nas plataformas de mensagens. Historicamente, segundo ela, WhatsApp e Telegram foram territórios dominados pela direita, que consolidou redes de mobilização durante o governo Jair Bolsonaro (2019-2022).

“Estamos testemunhando neste segundo turno um fenômeno inédito de organização digital e que, até por isso, gerou um fator inesperado pela campanha de Flávio”, diz a assessora.

Alek Maracajá, especialista em inteligência digital e diretor da AtivaWeb DataLab, lembra, contudo, que o tamanho dos canais não revela toda a dimensão das redes políticas no aplicativo.

“O campo bolsonarista opera desde 2018 numa rede descentralizada de grupos, então, um canal menor não significa presença menor no WhatsApp”, explica.

‘Exército do Lula’ cresce

O “Exército do Lula” ultrapassou a marca de 7,7 milhões de seguidores nesta quarta-feira (21), enquanto a “Tropa do Flávio” reúne cerca de 2 milhões.

Os canais oficiais dos presidenciáveis têm números menores. O de Lula conta com pouco mais de 2 milhões de seguidores, e o de Flávio, com pouco mais de 200 mil.

A diferença também aparece no ritmo de crescimento. Em 10 de outubro, o canal administrado por Janones tinha cerca de 3 milhões de seguidores. Dez dias depois, já havia superado os 7 milhões, mais que dobrando de tamanho em menos de duas semanas — o que faz parte da estratégia da campanha lulista de apostar em redes digitais.

Na avaliação de Daniela, o fato de o canal ser liderado por Janones, que não é filiado ao PT, também contribui para apresentar a mobilização como um movimento progressista mais amplo, capaz de atrair pessoas além da militância petista tradicional.

Já a “Tropa do Flávio”, criada posteriormente, está estabilizada na faixa de 2 milhões de seguidores por alcançar, principalmente, o núcleo mais engajado do bolsonarismo.

Os dois canais adotam estratégias semelhantes. Os administradores publicam comandos, chamados de “missões”, que incentivam os seguidores a compartilhar conteúdos, abordar eleitores e manter determinados assuntos em circulação nas redes sociais.

‘Seguidor não é voto!’

Para Maracajá, diretor da AtivaWeb DataLab, o número de inscritos não é suficiente para medir a influência dessas iniciativas sobre o eleitorado. “Seguidor não é voto”, afirma. Segundo ele, é necessário avaliar também o engajamento, a circulação das mensagens em outras plataformas e a capacidade de influenciar pessoas que ainda não estão convencidas.

Proposta de suspensão dos canais

A atuação dos canais também provocou uma disputa judicial. Na semana passada, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kássio Nunes Marques, determinou a suspensão do “Exército do Lula”, após um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, que alegou “disseminação de desinformação”. O canal foi restabelecido pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, mas acabou suspenso novamente por Nunes Marques, que argumentou que a ferramenta tinha vínculo com a campanha oficial e deveria estar registrada no TSE.

O “Exército do Lula” foi liberado depois que a campanha realizou o registro exigido. Em meio à controvérsia, uma minuta de resolução do TSE propôs desativar canais políticos com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao segundo turno. O texto, redigido pelo ministro André Mendonça, vice-presidente da Corte, foi barrado por Nunes Marques nesta quarta-feira (21).

A proposta buscava proteger a integridade da eleição no período próximo à votação. Se aprovada, atingiria tanto o “Exército do Lula” quanto a “Tropa do Flávio”. Para a assessora da Bites, a medida poderia reduzir a circulação de determinados conteúdos, mas não impediria que a mobilização migrasse para outros canais. Ela também avalia que uma mudança de regra às vésperas da votação poderia ampliar a controvérsia sobre a atuação do tribunal, especialmente diante dos questionamentos da campanha de Lula sobre decisões envolvendo o canal.

Maracajá faz uma ressalva semelhante: “A medida provavelmente reduziria disparos em larga escala, mas não há evidência suficiente para afirmar que reduziria a desinformação como um todo”.

Mobilização pode influenciar a reta final

Diante da possibilidade de novas restrições, Janones começou a direcionar seguidores do “Exército do Lula” para seu perfil pessoal no Instagram, como alternativa para manter a comunicação com os apoiadores, caso o canal seja suspenso novamente.

Para Daniela Alarcon, a atuação de Janones se tornou um fator de pressão para a campanha de Flávio. Embora a direita tenha um histórico mais consolidado de mobilização digital, ela avalia que o candidato do PL ainda não conseguiu construir uma frente equivalente à do canal pró-Lula em volume de seguidores e adesão às missões.

Maracajá também avalia que o peso eleitoral desses canais está menos na conversão direta de eleitores e mais na mobilização da base e na definição dos assuntos que dominam a reta final da campanha.

O impacto dependerá da capacidade de alcançar pessoas fora das próprias bolhas políticas.

Fonte: R7

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