
O setor produtivo nacional reagiu à decisão dos Estados Unidos de sobretaxar em 12,5% sobre produtos brasileiros, como parte de uma ação comercial baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A medida foi determinada pelo presidente Donald Trump e atinge 60 economias que, segundo o governo americano, não implementam nem aplicam de forma efetiva a proibição da importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
O calçado está incluso na medida e terá uma sobretaxa total de 37,5%. Para o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, o revés “piora o que já estava ruim”. “Na prática, teremos um adicional de mais 2,5% em relação ao cenário atual, pois amanhã (24) cairá a tarifa global de 10%. É um problema a mais, mas não surpreendeu o setor”, comenta, ressaltando que a medida aumentará o diferencial tarifário entre o Brasil e países fornecedores de calçados, em especial os asiáticos Vietnã, Indonésia e Camboja.
“Perderemos ainda mais mercado para esses concorrentes”, projeta. No início da semana, com o anúncio do tarifaço de 25%, a indústria calçadista já havia revisado sua projeção de queda nas exportações totais de calçados, que passou de um revés de 3,6% para 7,1%.
Para a Amcham Brasil, com entrada em vigor em 24 de julho, a medida alcançará cerca de 3 mil produtos brasileiros, correspondentes a US$ 12,5 bilhões em exportações anuais aos Estados Unidos. Para 85,3% dessas vendas, equivalentes a US$ 10,7 bilhões, seus efeitos serão cumulativos com as tarifas de 25% anunciadas na semana anterior, resultando em sobretaxas de 37,5% — um dos níveis mais elevados aplicados pelos Estados Unidos a seus parceiros comerciais.
NEGOCIAÇÃO
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, se reuniu nesta quinta-feira, 23, com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, para tratar de soluções que possam reduzir os impactos das tarifas aplicadas pelos Estados Unidos sobre as exportações brasileiras. Segundo Alban, o setor produtivo continuará apoiando as negociações do governo brasileiro com os norte-americanos.
“Saímos daqui muito satisfeitos com a afirmação categórica do ministro de que o Brasil vai continuar negociando. Essa é a opção número um que existe neste momento: continuar negociando”, enfatizou o presidente da CNI.
A decisão norte-americana, no entanto, exclui 471 produtos brasileiros que ficarão isentos da nova sobretaxa sob a alegação de falhas no combate ao trabalho forçado. Entre os itens poupados da medida estão café, petróleo, gás natural, fertilizantes, madeira, suco de laranja e derivados de açaí.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, na noite desta quinta-feira, que o Brasil acionará os instrumentos da Lei de Reciprocidade para responder à nova imposição de tarifas dos Estados Unidos sobre os produtos brasileiros. Lula afirmou, ainda, que o Brasil buscará órgãos internacionais para denunciar o que julga ser um tratamento ilegal.
“Tendo em vista o caráter completamente arbitrário e injustificado das tarifas anunciadas contra o Brasil, iniciaremos imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e levaremos o tema ao mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).”


