
O papel das ruas na vitória histórica do presidente Lula (PT), eleito neste domingo para seu quarto mandato, será ainda cantado em prosa e verso, e estudado por antropólogos, cientistas políticos e sociais. Sem exagero, analistas que acompanham a política brasileira desde a redemocratização, passaram a comparar as multidões que tomaram as ruas em cidades de Norte a Sul do país depois do primeiro turno ao movimento das Diretas Já. Que, entre os anos de 1983 e 1984, incendiaram o país reivindicando a volta das eleições diretas para a presidência da República.
“O fato é que o que aconteceu entre o primeiro e o segundo turno da eleição de 2026 nas ruas conseguiu, após muitos anos de polarização, furar uma bolha. Foi a sociedade civil que furou a bolha para a campanha do Lula. A sociedade que foi para a rua”, destaca a professora Silvana Krause, do programa de pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs.
Os movimentos, que começaram no dia seguinte ao domingo do primeiro turno no qual Flávio Bolsonaro (PL) passou para a segunda etapa da corrida à frente de Lula, surpreenderam as lideranças e a campanha petista. Que, naquele dia e durante toda a semana seguinte, permanecia aturdida com o resultado negativo, e quase “jogoiu a toalha”, antes de acreditar que a virada era possível.
Em Porto Alegre, onde Flávio Bolsonaro havia suplantado Lula por uma diferença de 20 pontos no primeiro turno da disputa, a caminhada com o petista realizada em 19 de outubro pela Borges de Medeiros, escancarou a característica orgânica das mobilizações que se multiplicavam em diferentes regiões. Quase 200 mil pessoas tomaram as ruas do Centro Histórico.
Na multidão, grupos de jovens, estudantes, pais e mães com filhos, entoavam hinos que não eram de um partido. Eles não estavam lá para ver o presidente. Estavam defendendo as próprias convicções. No sábado da véspera da eleição, diferentes pesquisas eleitorais seguiam dando o senador matematicamente à frente, e tinham potencial para desmobilizar as ruas, mas os manifestantes não arrefeceram, e seguiram com movimentos gigantes nas principais capitais do país. O domingo mostrou o poder da mobilização da sociedade.
Foto: Flávia Bemfica/Correio do Povo

