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Peste pneumônica: entenda a doença que causou alerta na Rússia e qual o risco de uma nova epidemia

A peste, doença bacteriana que matou ao menos metade da população europeia no século 14, voltou ao noticiário após a morte de uma pesquisadora russa na última semana. Segundo o Ministério da Saúde, trata-se de uma infecção aguda causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida principalmente pela picada de pulgas infectadas, que pode se manifestar nas formas bubônica, septicêmica e pneumônica.

A bactéria circula entre roedores silvestres em todos os continentes, exceto a Oceania, segundo a BBC. No Brasil, há focos naturais no Nordeste e em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Ainda assim, a peste tem tratamento com antibióticos e, hoje, baixo potencial de se espalhar entre humanos, avaliam especialistas ouvidos pelo veículo britânico.

Na Rússia, a suspeita surgiu após a morte de Daria Shipilova, técnica de laboratório de 28 anos do Instituto Antipeste da Sibéria e do Extremo Oriente, em Irkutsk. Segundo informações do jornal O Estado de S. Paulo, ela foi internada em 29 de setembro e morreu em 2 de outubro.

As autoridades russas descartam a doença e atribuem a morte de Shipilova a uma “pneumonia de origem indeterminada” e que os exames não encontraram microrganismos ligados ao trabalho dela. Ainda assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) acionou Moscou para avaliar o caso, e países da Ásia Central reforçaram controles sanitários nas fronteiras.

Como ocorre a transmissão

Diferentemente da peste bubônica, forma mais conhecida da doença, transmitida por pulgas infectadas e que afeta os gânglios linfáticos, o caso russo envolve a suspeita de peste pneumônica. Trata-se de uma infecção pulmonar altamente contagiosa, que se transmite por gotículas, segundo a OMS.

De acordo com o Ministério da Saúde, a incubação da forma pneumônica leva de um a três dias. A OMS aponta que pode ser de apenas 24 horas em alguns casos e que a infecção pode ser fatal se não for diagnosticada e tratada cedo. Entre os sintomas estão falta de ar e tosse, frequentemente com catarro com sangue.

Existe risco de epidemia?

Especialistas consideram o cenário improvável. A avaliação inicial da OMS aponta risco “moderado a baixo” para Irkutsk, “baixo” para a Rússia e “muito baixo” para a Europa, declarou o porta-voz Christian Lindmeier em Genebra.

“A peste pneumônica pode ser transmitida de pessoa para pessoa, e daí a preocupação que isso gera. Mas, naturalmente, diante de qualquer surto de doença infecciosa, as pessoas pensam em lockdowns e na Covid, e é justamente isso que não vai acontecer aqui”, afirmou Simon Clarke, professor associado de microbiologia celular da Universidade de Reading, no Reino Unido, à BBC.

A peste pneumônica também costuma ter cadeias de transmissão curtas, porque a infecção evolui rapidamente e reduz o tempo em que o paciente pode transmitir a bactéria.

Além disso, os grandes surtos do passado dependiam de ratos, pulgas e pessoas vivendo aglomeradas em condições insalubres, cenário que não se repete hoje na Rússia, nos Estados Unidos ou na Europa, como explica a bióloga e jornalista científica russa Irina Yakutenko ao veículo britânico.

Ademais, a doença tem tratamento. Retomando informações do Ministério da Saúde, os antibióticos devem começar o quanto antes, de preferência nas primeiras 15 horas após o início dos sintomas, sem esperar o resultado de exames. Yakutenko explica que antibióticos básicos funcionam bem contra a peste porque, por ser rara hoje, a bactéria não desenvolveu resistência generalizada.

Desinformação e pedidos de esclarecimento

A Rússia acusa a imprensa de espalhar desinformação sobre o caso. Na sexta-feira, 2, o veículo local People of Baikal, citando fontes anônimas ligadas aos serviços de segurança regionais, afirmou que Shipilova poderia ter contraído peste pneumônica após a quebra de um tubo de ensaio e que até 200 pessoas com quem ela teve contato estavam em quarentena. Canais do Telegram também relataram que hospitais de Irkutsk impuseram isolamento de três semanas.

O governador da região, Igor Kobzev, contestou a versão. Segundo ele, uma comissão de especialistas concluiu que a jovem morreu de “pneumonia de origem indeterminada”, e nenhum funcionário do laboratório procurou atendimento médico desde a morte.

A agência de saúde pública Rospotrebnadzor negou ter endurecido medidas sanitárias, classificou como falso um documento que circulava na internet sobre restrições na região e informou que Irkutsk registra cerca de 16 mil casos de infecções respiratórias virais por semana, sem tendência de alta nas últimas duas semanas. Nesta quarta-feira, 7, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que a “imensa maioria” do que se divulga sobre o caso é falsa, segundo a AFP.

Os Estados Unidos, a Organização Mundial da Saúde e a União Europeia cobram transparência de Moscou. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, pediu esclarecimentos sobre relatos de que um segundo funcionário estaria com pneumonia de origem indeterminada.

Em Irkutsk, porém, moradores ouvidos pela agência francesa demonstraram pouca preocupação. “Se fosse realmente grave, acho que já teriam fechado tudo”, disse um deles, que preferiu não se identificar.

Fonte: Giovanna Reis/Correio do Povo

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