
Foto: Reprodução/YouTube @institutoconhecerbrasil
A Polícia Civil de São Paulo cumpre mandados de busca e apreensão, nesta segunda-feira (1º), em endereços ligados a Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, que conta a trajetória de Jair Bolsonaro até a Presidência da República.
Os policiais estão atrás de provas de desvios, autofaturamento e notas fiscais frias em um contrato de R$ 108 milhões para a instalação e fornecimento de wi-fi gratuito na capital paulista. Ninguém foi preso.
O acordo foi firmado entre a SMIT (Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia) e o ICB (Instituto Conhecer Brasil), que pertence a Karina.
Há suspeitas dos crimes de frustração do caráter competitivo em licitação (artigo 337-F do Código Penal), fraude na execução de contrato administrativo (artigo 337-L do Código Penal) e emprego irregular de verbas ou rendas públicas (artigo 315 do Código Penal).
Todos os mandados foram autorizados pela 1ª RAJ — São Paulo-SP (Vara Regional das Garantias da Comarca da Capital). A reportagem tenta localizar a defesa de Karina Ferreira da Gama e a Prefeitura de São Paulo. Quando enviados, os posicionamentos serão incluídos.
Elo com Dark Horse
A operação de hoje é fruto de uma investigação solicitada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo, com base em informações obtidas pela Procuradoria da República – a apuração não permaneceu na esfera federal porque a verba em questão pertence só à Prefeitura de São Paulo.
Conforme o contrato, o ICB seria responsável pela implantação, operação e manutenção de 5.000 pontos de acesso à rede pública de internet sem fio em comunidades periféricas da cidade de São Paulo, no contexto do programa governamental denominado WiFi Livre SP.
Os investigadores encontraram indícios de fraude desde a contratação da organização, porque só o ICB participou da disputa, mesmo sem qualquer histórico de atuação, experiência anterior ou capacidade técnica no setor de telecomunicações, só com histórico operacional em feiras de livros e eventos de natureza literária ou religiosa.
A polícia também identificou grande diferença de preços entre os valores praticados pelo instituto no mercado e em contratações pretéritas.
Os investigadores citam que a Prodam, empresa pública municipal de tecnologia de São Paulo, prestava serviços idênticos com custos de R$ 230 para implantação por ponto e R$ 306 para manutenção mensal por ponto. Por outro lado, o Instituto Conhecer Brasil estipulou o pagamento fixo mensal de R$ 1.800 por ponto de internet instalado – custo muito superior para a municipalidade.
Por fim, as metas não foram cumpridas porque, conforme cronograma original, havia a previsão de entregar 5.000 pontos de conectividade até o mês de junho de 2025. Até agora, a entidade instalou apenas 3.200 pontos. A fim de disfarçar o atraso, houve três aditivos de contrato em intervalo de dias.
Por outro lado, a prefeitura repassou, de forma antecipada, R$ 26 milhões sem a devida contraprestação. Só em julho e agosto de 2024, mais de R$ 11 milhões saíram dos cofres da prefeitura para o instituto por conta da instalação dos 3.200 pontos de internet. Naquela época, só seis deles estavam em funcionamento.
A apuração da polícia paulista indica um financiamento cruzado ilícito. Com base em reportagens da imprensa, os investigadores suspeitam que Karina Ferreira da Gama, durante a vigência do contrato com a prefeitura paulistana, usou recursos para implantação de internet gratuita na cidade para bancar o filme de Bolsonaro.
Por meio da produtora Go Up Entertainment Ltda., sob seu controle direto, Karina iniciou a produção e gravação de Dark Horse, cujo custo é estimado entre R$ 8 milhões e R$ 20 milhões. Para a polícia paulista, há indícios de “severa confusão patrimonial”.
Alvos da Polícia Civil
A Justiça autorizou a Polícia Civil a recolher computadores, notebooks, servidores corporativos, tablets, smartphones e quaisquer mídias eletrônicas de armazenamento físico, como discos rígidos externos, cartões de memória e unidades USB do tipo pen drive.
Os investigadores também buscam documentos de natureza física ou digital que apresentem nexo com as finanças e execução do convênio, incluindo livros contábeis, livros fiscais, contratos de prestação de serviços, termos de parceria, relatórios de medição técnica, notas fiscais, faturas comerciais, recibos de pagamento e relatórios de auditoria interna ou externa.
Os agentes também vão confiscar valores, em espécie, acima de R$ 3.000 sem comprovação de origem.
Fonte: R7