
O avanço do Guaíba sobre parte das ilhas de Porto Alegre ainda altera a rotina de moradores neste sábado, mas o cenário é bem diferente daquele registrado na enchente de 2024. Com o nível em lenta redução, a água segue ocupando alguns trechos de vias, principalmente na avenida Nossa Senhora da Boa Viagem, na Ilha da Pintada, impedindo a circulação de veículos, mas sem provocar registros de desalojamentos na Capital.
Conforme o monitoramento do governo do Estado, a régua do Cais Mauá marcava 2,49 metros às 9h45min, com tendência de queda de 1,2 centímetro por hora. Na Usina do Gasômetro, o nível era de 1,81 metro. Às 10h30min, o acompanhamento feito pela MetSul junto à régua do Cais Central apontava 2,47 metros.
Nas ilhas, o cenário é marcado por um misto de resignação e mudanças deixadas pela enchente histórica de 2024. Muitas casas permanecem abandonadas ou foram demolidas após a saída de famílias contempladas por programas habitacionais, como o Compra Assistida.
Com isso, o cenário em diversos pontos é de terrenos vazios e escombros onde antes havia moradias. Consequentemente, esse êxodo forçado faz com que o número de pessoas diretamente afetadas seja menor do que o projetado para a situação, se comparado ao cenário anterior às enchentes de 2024.
Entre aqueles que permaneceram estão, principalmente, pescadores que aprenderam a conviver com as cheias ao longo de muitas décadas vividas na ilha. É o caso do aposentado José Mauro da Silva Cosme, de 67 anos, nascido e criado na Ilha da Pintada. Morador da mesma casa há mais de cinco décadas, ele viu a água alcançar a calçada em frente ao imóvel, mas sem ameaçar a residência, construída em nível mais elevado.
Segundo ele, episódios como os atuais eram incomuns no passado. “Moro aqui há mais de 50 anos e isso era muito raro. Antigamente a água chegava, no máximo, na beirada. Hoje qualquer sequência de chuva já muda completamente o cenário”, relata.
Para Cosme, uma das medidas que poderiam ajudar seria a ampliação da retirada de sedimentos do canal. “O governo deveria liberar mais a retirada de areia para melhorar o escoamento da água. A gente percebe que o canal mudou muito ao longo dos anos”, afirma.
Apesar dos transtornos, ele observa que a situação já melhorou desde os últimos dias. “A água baixou bastante. Pelo menos agora, com o rio Jacuí cheio, está está dando bastante peixe”, comenta.
Enquanto Porto Alegre acompanha a lenta redução do nível, em Eldorado do Sul o trabalho é voltado para evitar novas inundações. No bairro Picada, equipes da Secretaria de Obras aproveitaram a cheia para identificar os pontos mais críticos do sistema de drenagem.
Máquinas abriram um corredor de serviço ao longo do canal localizado abaixo da BR 116 para permitir o acesso dos equipamentos e ampliar a limpeza do trecho. Conforme a prefeitura, a medida resultou na retirada de toneladas de grama e, por consequência, fez aumentar a vazão do canal.
Segundo o secretário de Obras, Jorge Rossi, o município também prepara novas intervenções estruturais. “Nós já elaboramos o projeto para instalar mais quatro galerias e encaminhamos o pedido de recursos ao governo do Estado por meio do Funrigs. Aproveitamos momentos como este, com o nível elevado, para avaliar tecnicamente os melhores locais para executar essas obras”, explica.
O boletim divulgado neste sábado pela Defesa Civil estadual aponta que Eldorado do Sul ainda registra 320 pessoas desalojadas em razão da cheia. Porto Alegre, por sua vez, não possui desalojados registrados até o momento.
Fonte: Guilherme Sperafico/Correio do Povo


