
A semana econômica traz a inflação ao consumidor de março como tema central do calendário, com as divulgações concentradas no fim da semana. O início será relativamente esparso em indicadores relevantes — e os investidores seguirão monitorando o desenrolar do conflito no Oriente Médio. O momento é de expectativa sobre o desfecho ou o prolongamento da guerra: as últimas notícias apontam para negociações entre Irã e Omã sobre um protocolo de administração do Estreito de Ormuz no pós-guerra — rota responsável por cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e importante corredor para insumos industriais e fertilizantes.
Apesar de ser uma notícia positiva, há temores de que o Irã passe a cobrar uma espécie de “pedágio” no trecho, especialmente para os países considerados “inimigos” — leia-se EUA, Israel e os aliados europeus e árabes de Washington. As declarações mais recentes do presidente Donald Trump, no entanto, não foram animadoras.
Após indicar, no início desta semana, a possibilidade de um cessar-fogo sem resolução para o tráfego no Estreito de Ormuz, Trump prometeu a continuação do conflito por mais duas a três semanas e ameaçou destruir a infraestrutura energética iraniana, afirmando que os objetivos principais já foram alcançados, mas que ainda é necessário “terminar o serviço”.
“A preocupação central — embora não reconhecida formalmente pelos EUA — é o fechamento do Estreito de Ormuz, paralisado desde o início do conflito em 28 de fevereiro. Cerca de 40 países – sem a participação dos EUA – buscam alternativas para retomar o fluxo e discutir formas de restabelecer a liberdade de navegação no local. Prevalece, em geral, a ideia de que qualquer auxílio à segurança da passagem está condicionado a um cessar-fogo”, diz Leandro Manzoni, analista da plataforma Investing.com.
Com a continuação do impasse, o petróleo segue negociado acima de US$ 100 o barril — longe da faixa de US$ 65–70 registrada antes do início do conflito. A relativa boa notícia é que o preço não ultrapassou os US$ 110, mas tampouco recuou abaixo dos US$ 100, patamar que as principais casas econômicas já tratam como o novo normal para os próximos três meses. Isso porque o fim da guerra não significará normalização imediata: o mercado ainda terá de absorver os danos à infraestrutura e recompor os fluxos logísticos.
Esse choque de oferta segue desafiando a política monetária das principais economias. Por ora, os bancos centrais permanecem em modo de espera, avaliando os canais de transmissão da disrupção sobre suas economias: 1) o direto, via alta dos derivados de petróleo; 2) o indireto, via encarecimento dos custos de transporte e produção; 3) e o das expectativas, cuja contaminação ainda está sendo monitorada.
SEMANA
A semana oferecerá a primeira oportunidade concreta de mensurar o impacto da alta do petróleo nos índices de preços ao consumidor. A zona do euro se antecipou: a prévia da inflação anualizada de março chegou a 2,5%, ante 1,8% no dado anterior, superando o centro da meta de 2%. Agora é a vez de Brasil, Estados Unidos e China.
Na China, a expectativa é de que a inflação ao produtor entre em terreno positivo pela primeira vez desde 2022. A inflação ao consumidor também deve continuar a tendência de alta verificada nos últimos meses, dado que metade do petróleo importado pelo país passa pelo Estreito de Ormuz e elevou, com isso, o preço dos combustíveis no país. Nos EUA, serão dois dados em sequência.
Na quinta-feira, 9, o PCE de fevereiro — índice preferido do Fed, ainda defasado em relação ao conflito. O IPC de fevereiro já havia sinalizado aceleração, puxada pelos preços da gasolina, que já reagia à retórica agressiva entre Washington e Teerã antes do início formal das hostilidades.
Na sexta-feira, 10, o IPC de março oferecerá um panorama mais atualizado de como a alta dos combustíveis contaminou outros preços da economia americana. No Brasil, além da leitura da inflação cheia e dos impactos nos transportes, o mercado avaliará o comportamento da inflação de serviços — variável essencial para a tomada de decisão do Copom.
O último Boletim Focus registrou alta marginal da inflação no horizonte relevante do BC: de 3,8% para 3,84% para 2027. Esse movimento ainda permite ao Banco Central manter o processo de calibração, com prováveis cortes de 25 pontos-base tanto em abril quanto em junho. O BC só se sentirá ameaçado em seu cronograma se a inflação cheia e a de serviços vierem bem acima do esperado nos dados de março e abril.
“Vale notar que a inflação de serviços pode ter sido favorecida por um mercado de trabalho menos apertado no início de 2026 — com desaceleração na criação de vagas, embora os salários permaneçam em patamar elevado”, diz Manzoni.
ATA DO FED
Na quarta-feira, 8, será divulgada a ata da última reunião do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA). O documento será lido com atenção especial: o presidente do Fed, Jerome Powell, sinalizou durante a entrevista coletiva pós-decisão de 18 de março que chegou a haver discussão interna sobre eventual alta de juros, a depender do impacto do petróleo na inflação. O mercado buscará entender em que contexto essa possibilidade foi ventilada. Powell e John Williams, presidente do Fed de Nova York, reforçaram que aguardarão dados concretos antes de qualquer sinalização de mudança de rota.