
O El Niño de 2026-2027 caminha para se tornar o mais intenso já registrado na série moderna de monitoramento do Pacífico Equatorial. Segundo o boletim semanal mais recente da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA), a anomalia de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 chegou a +2,6°C, patamar classificado como Super El Niño e o mais alto desde o episódio de 2015-2016.
O número fica a 0,4°C do teto histórico. Um levantamento da MetSul Meteorologia com base nos dados semanais da agência mostra que o pico da série ocorreu em 18 de novembro de 2015, com 3,0°C. Em seguida aparecem o evento de 1982-1983, que alcançou 2,6°C na semana de 29 de dezembro de 1982, e o de 1997-1998, com máximo de 2,3°C, apesar de figurar entre os mais destrutivos do século passado pelos impactos globais.
Para efeito de comparação, o Super El Niño de 2023-2024, associado à maior enchente da história do Rio Grande do Sul, teve anomalia semanal máxima de 2,1°C, registrada em 22 de novembro de 2023. Ou seja, o evento atual já ultrapassou a marca do episódio que inundou o Estado em maio de 2024.
Agência dos EUA projeta evento histórico
O Centro de Previsão Climática (CPC), ligado ao Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA, divulgou nesta quinta-feira, 13, a discussão diagnóstica mensal do fenômeno e manteve o sistema de alerta em El Niño Advisory. O documento aponta chance superior a 90% de um evento muito forte entre o outono e o inverno do Hemisfério Norte, período que corresponde à primavera e ao verão no Brasil.
A projeção vai além. Para o trimestre de outubro a dezembro de 2026, o CPC calcula 69% de probabilidade de um episódio histórico, capaz de superar todos os El Niño registrados desde 1950. O critério é um valor trimestral de +2,5°C ou mais pelo índice RONI. A agência ressalta que um fenômeno dessa magnitude aumenta a chance de impactos típicos do El Niño, mas não os garante.
O prognóstico oficial reúne modelos da América do Norte e de outros centros internacionais, e indica fortalecimento contínuo do fenômeno até o fim do ano. A próxima atualização está marcada para 10 de setembro.
Dois índices, duas leituras
Neste ano, a NOAA passou a acompanhar o Pacífico também pelo índice relativo, o RONI. Por essa métrica, a anomalia atual está em +1,8°C, o que enquadra o fenômeno como El Niño forte, e representa o maior valor desde fevereiro de 2015.
A diferença entre os dois índices é de referência. O ONI (Oceanic Niño Index) compara a temperatura da Niño 3.4 com a média climatológica da própria região. O RONI (Relative Oceanic Niño Index) subtrai desse resultado a anomalia média das águas tropicais entre 20°S e 20°N, o que filtra o aquecimento global de fundo e torna a comparação entre décadas mais confiável.
Assim, o ONI pode registrar uma temperatura mais alta simplesmente porque o oceano tropical como um todo está mais quente, enquanto o RONI procura identificar quanto o Pacífico equatorial está mais quente ou mais frio em relação ao restante dos trópicos, reduzindo a influência do aquecimento global e tornando a comparação entre diferentes épocas mais consistente.
Sinais de intensificação
Outros indicadores reforçam o ritmo acelerado do fenômeno. As anomalias na região Niño 1+2, junto ao litoral do Peru e do Equador, superam marcas extraordinárias. O aquecimento abaixo da superfície também bateu recorde, alcançando 10,7°C acima da média, sinal de uma quantidade excepcional de energia acumulada no oceano Pacífico tropical excepcionalmente aquecido.
Mapas de altura do mar do satélite Sentinel-6 registram elevação contínua no Pacífico Central e Leste, reflexo de uma extensa onda de Kelvin oceânica que avança para leste e tende a alimentar o fenômeno nos próximos meses.
As projeções dos modelos, atualizadas no início de agosto, já elevaram a previsão de pico para o fim do ano. Com os dados atuais, a MetSul avalia que as rodadas de setembro podem apontar intensidade ainda maior.
Fonte: Correio do Povo, com informações da MetSul Meteorologia


